Públio José

23.10.2006

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CORRUÇÃO VENCEDORA

 

Públio José

      

O Brasil é, realmente, um país singular, como diria aquele intelectual após entornar a quinta dose de uísque. A diferença é que ele falaria com a língua enrolada pelo efeito entorpecedor do álcool. Já eu falo por sentir na própria pele, na qualidade de brasileiro, a gravidade de tal afirmação. No campo médico um paciente é dado como morto, embora apresente alguns sinais de vida, quando a ministração de medicamentos, de remédios, de drogas, mesmo que as mais modernas e de comprovada eficácia, não sinaliza mais o retorno da vida. O médico não pode afirmar que o paciente está morto – embora também não possa catalogá-lo como um corpo vivo. É nesse estágio que está o Brasil no que diz respeito ao combate à corrução. São tantos os casos, são tantos os envolvidos e, pior, são tantos os processos, as investigações, que o organismo legal brasileiro começa a dar sinais de infecção generalizada.

Os sinais de exaustão da máquina jurídica nacional são evidentes. Como são também evidentes os sinais que começam a esborrotar da cabeça da opinião pública brasileira, pelo altíssimo volume de informações, denúncias, investigações, quebra de sigilo telefônico, quebra de sigilo bancário, e mais aquilo, e mais aquilo outro. Quando se analisa a série história que envolve a justiça brasileira, quando se olha para trás e se vê o mundão de casos ainda sem encaminhamento, sem julgamento pela máquina judiciária, quando se observa o sem número de casos de impunidade – e, inclusive, do significativo volume de casos de corrução que envolve membros da própria justiça, a que conclusão devemos chegar? Se os casos anteriores não tiveram o desfecho que deveríamos esperar da parte da justiça, que desfecho terão os casos de agora, quando, além do mais, envolvem gente grossa do próprio governo?

Santa ingenuidade é se esperar que dessa cartola saia algum coelho que nos regenere a esperança. Pois a justiça está tão empanturrada de coisas para fazer, investigar, julgar, que dificilmente se desincumbirá dessa tarefa, mesmo que queira, nos próximos dez, vinte anos. Nesse período outras realidades se instalarão, outros interesses serão estabelecidos, outros modismos ocuparão os espaços da mídia e – o que é pior – a crônica falta de memória histórica do brasileiro se encarregará de jogar tudo em um profundo e insondável mar do esquecimento. O que expresso, portanto, não é fruto de uma momentânea demonstração de pessimismo, mas a constatação de que o volume de casos de corrução no Brasil chegou a um volume tão alto, e de investigação tão simultânea, que o país, à semelhança de um paciente terminal, não encontra mais forças, no seu espaço judiciário, para buscar as soluções que o momento está a exigir.

             Estou exagerando? Não. Basta olhar os recentes resultados eleitorais de 1º de outubro e vê, reconduzidos à Câmara Federal e ao Senado, grande parte dos responsáveis pelos escândalos que ocuparam, até recentemente, grandes espaços na mídia e na mente da opinião pública. Também não é exagero o que afirmo ao se ver Lula, o principal acusado dos escândalos atuais, em permanente lua de mel com o eleitorado, que não vê nele, apesar de todas as evidências, o comandante-em-chefe da esquadra da corrução que singra os mares brasileiros. No caso específico de Lula, o mais inexplicável é que, quanto mais se avolumam as denúncias envolvendo sua participação nas mais diversas formas de patifaria, mais o eleitor se fixa no seu nome como candidato. E para ficarmos mais tontos ainda: pesquisa recente apontou que Lula é reconhecido como o mais corruto dos presidentes brasileiros. E agora?

Soluções à vista? Só o tempo, com sua enorme capacidade de acomodação, pode responder a essa pergunta. O que se depreende do ponto de vista histórico, e também o que pode vir a nos consolar, é que o Brasil já enfrentou períodos indigestos de natureza política, traduzidos em simples tremores e também em terremotos de grandes proporções, e sempre se saiu deles de forma ordeira e pacífica – graças a Deus. Atualmente, do eleitorado pouco se pode esperar pelos motivos já expostos. A esperança talvez resida no surgimento de uma nova liderança. Liderança, afinal, que dê exemplo de decência, de coerência, de visão voltada para o bem comum e para os interesses maiores da nação brasileira. Por hora, só nos resta esperar e sonhar com um provável novo tempo, enquanto, lamentavelmente, assistimos a corrução generalizada ganhando a parada. Palmas para ela. E ela merece?     

 

            

 

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