Públio José

28.04.2008

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OS TESOUROS DE CADA UM

 

            Públio José 

 

A narração jornalística nos diz que uma menina de nome Ana Beatriz morreu em Natal, no último dia 22 de abril, vítima de atropelamento por trem. Até aí nada demais com a notícia, afora o fato doloroso em si da morte de uma criança que no próximo dia 20 de junho estaria completando 11 anos. Doloroso, muito doloroso. No mais, o que dizer? A lamentar a realidade que, em seguida, emergirá do acontecimento. A morte de Ana Beatriz escorregará para a vala comum dos acontecimentos que acometem rotineiramente a periferia com sua farta crônica de fatos tristes como este, principalmente na periferia das grandes e médias cidades que contam em sua malha viária com os serviços coletivos do trem, a preencher, com seu resfolegar medonho e com seu enorme e pesado corpanzil, os anseios e necessidades de transporte de massa dos seus habitantes mais humildes.  

A reportagem conta, nos mínimos detalhes, sobre como tudo se passou. Inclusive dos desesperados esforços do maquinista para chamar a atenção da menina. Em vão. Enleada com o seu caminhar para a escola, e certamente com tudo de bom que ali lhe aconteceria, ela não prestou atenção no elemento mortal que vinha em sua direção. Outro fato na reportagem acende a nossa curiosidade, em função de sua singeleza, de sua aparente desimportância. Segundo o relato jornalístico, a morte de Ana Beatriz foi causada pela sua chinela. Conforme está escrito, ao atravessar a linha do trem, sua chinela ficou presa nos trilhos. Momentaneamente aflita pela perda do calçado, a menina decidiu voltar – e com este gesto construiu o momento de sua morte. Com toda certeza, para Ana Beatriz, a chinela era um elemento importante em seu dia a dia. Tanto assim que, aflita com sua possível perda, voltou para apanhá-la.

Ah, os tesouros que agregamos em nossas vidas! Para uns eles se traduzem em posses materiais, títulos nobiliárquicos, conquistas acadêmicas, esportivas, intelectuais... Para outros seus tesouros se manifestam pelo volume da conta bancária, pelo sucesso empresarial, pelo carro importado, pela adega impecavelmente mantida. A conclusão a que se chega é que cada um entroniza seus próprios tesouros segundo a visão de vida, valores, anseios, ambições. Já para Ana Beatriz, no momento em que o trem esmagava seu frágil corpo, arrastando, por longos e tenebrosos instantes, sonhos e desejos com certeza acalentados na consonância da sua pouca idade, seu tesouro se constituía numa simples chinela. E, no seu desespero no sentido de resgatá-la, de tê-la de volta, teve apagada a chama da vida. Quanta infelicidade! Ah, Ana, por que voltar? Era uma simples chinela!

Momentos, instantes, circunstâncias, ocasiões... Quem há de analisá-los para, assim, vertê-los do campo do possível, do tangível para o imensurável terreno das ações cometidas sobre forte e inescapável pressão? Quem pode julgá-los, observando suas particularidades, suas motivações, suas idiossincrasias? A cada um os seus momentos. E, por extensão, os seus tesouros, com suas imprevisíveis e insondáveis conseqüências. Agora, me permita a pergunta: você voltaria por seus tesouros? Um pouco mais sobre Ana Beatriz. Acabara de ser eleita líder de sua classe, numa escola que não ficava distante de sua casa. Filha de pais separados, morava com a mãe, por sua vez empregada doméstica em casa de um bairro chique da cidade. Ana Beatriz pesava pouco mais de 30 quilos e foi atropelada por um gigante metálico que atingia, só na cabine, a marca das 60 toneladas. Ah, Ana, por que voltar? Voltar pra quê?       

 

 

 

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