OBSERVANDO

Wellington Medeiros (*)

welingtonmedeiros@bol.com.br 


 

Diante do clamor

            Wellington Medeiros*

 

Ao completar hoje 300 artigos publicados neste JH toda segunda-feira, surgiu a idéia de marcar esta data com a seleção daquele que de alguma forma possa ter mais contribuído para reflexão do leitor. Se nesses textos os mais diferentes temas foram abordados e alguns repercutidos através de e-mails recebidos, um deles, paradoxalmente, que gostaria de ver reproduzido e avaliado foi o primeiro de 2007 e não foi no todo escrito por mim. Tratava-se de uma mensagem de autoria da escritora gaúcha Sara Maria Binatti dos Anjos. Se há três anos, denominava “Prece do Povo”, hoje pode ser considerada um exercício essencial de memória e alerta diante do clamor provocado pela permissividade, licenciosidade e até mesmo do culto – ou é missa – aos maus costumes.
- Fui criado com princípios morais comuns. Quando criança, ladrão tinha a aparência de ladrão e nossa única preocupação em relação à segurança era a de que os “lanterninhas” dos cinemas nos advertissem devido às batidas com os pés no chão quando uma determinada música era tocada no início dos filmes, nas matinês de domingo. Mães, pais, professores, avós, tios, vizinhos eram autoridades presumidas, dignas de respeito e consideração. Quanto mais próximos, e/ou mais velhos, mais afeto. Inimaginável responder grosseiramente a policiais, mestres, aos mais idosos e autoridades. Confiávamos nos adultos porque todos eram pais e mães de todas as crianças da rua, do bairro, da cidade. Tínhamos medo apenas do escuro, de sapos, de filmes de terror.
Hoje me bateu uma tristeza infinita por tudo que perdemos, por tudo que meus filhos um dia temerão, pelo medo no olhar de crianças, jovens, velhos e adultos. Matar os pais, os avós, violentar crianças, seqüestrar, roubar, enganar, passar a perna, tudo virou banalidade de notícias policiais, esquecidas após o primeiro intervalo comercial. Agentes de trânsito multando infratores são exploradores funcionários de indústrias de multas. Policiais em blitz é abuso de autoridade. Regalias em presídios é matéria votada em reuniões. Direitos humanos para criminosos, deveres ilimitados para cidadãos honestos. Não levar vantagem é ser otário. Pagar dívidas em dia é bancar o bobo, anistia para os caloteiros de plantão. Ladrões de terno e gravata, assassinos com cara de anjo, pedófilos de cabelos brancos.
O que aconteceu conosco? Professores surrados em salas de aula, comerciantes ameaçados por traficantes, grades em nossas janelas e portas. Crianças morrendo de fome. Que valores são esses? Carros que valem mais que abraço; filhos querendo-os como brindes por passar de ano. Celulares nas mochilas dos recém saídos das fraldas. TV, DVD, vídeo-game, o que vai querer em troca desse abraço, meu filho? Mais vale um Armani do que um diploma. Mais vale um telão do que um papo. Mais vale um baseado do que um sorvete. Mais valem dois vinténs do que um gosto. Que lares são esses? Jovens ausentes, pais ausentes, droga presente e o presente um droga. Quando foi que esqueci o nome do meu vizinho? Quando foi que olhei nos olhos de quem me pede roupa, comida, calçado sem sentir medo? Quando foi que fechei a janela do meu carro? Quando foi que me fechei?...
Quero de volta a minha dignidade, a minha paz. Quero de volta a lei e a ordem, a liberdade com segurança. Tirar as grades da minha janela para tocar as flores. Sentar na calçada e ter a porta aberta nas noites de verão. Quero a honestidade como motivo de orgulho. A retidão de caráter, a cara limpa e o olho no olho. Quero a vergonha, a solidariedade. Quero a esperança, a alegria. Teto para todos, comida na mesa, saúde...
Não quero listas de animais em extinção. Não quero clone de gente, quero cópia das letras de músicas, cultura e ciência. Quero voltar a ser feliz! E dizer basta a esta inversão de valores e ideais. Calar a boca de quem diz: “a nível de”, “enquanto pessoa”... Quero xingar quem joga lixo na rua, quem fura a fila, quem rouba, quem ultrapassa a faixa, quem não usa cinto, quem não dignifica meu/seu voto. Rir de quem acha que precisa de silicone, lipoaspiração, dieta, cirurgia plástica, carro zero, laptop, bolsa XYZ, calça ZYX para se sentir inserido no contexto ou ser “normal”.
Abaixo o “ter”, viva o “ser”. E viva o retorno da verdadeira vida, simples como uma gota de chuva, limpa como um céu de abril, leve como a brisa da manhã!. Vamos voltar a ser “gente”? Ter o amor, a solidariedade, a fraternidade como base. A indignação diante da falta de ética, de moral, de respeito... Discordar do absurdo. Construir sempre um mundo melhor, mais justo, mais humano. Todos estão vendo a necessidade.

 

(*) Wellington Medeiros é Jornalista. 

. Artigo publicado também no Jornal de Hoje, edição de 12.04.2010

 

 

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