OBSERVANDO

Wellington Medeiros (*)

welingtonmedeiros@bol.com.br 


 

Armando e a censura

            Wellington Medeiros*

 

“Não há nada mais chato do que a censura. Não há nada mais chato do que ser o censor. Não há nada mais burro do que a censura, porque a censura simplesmente estimula o boato. Ela gera a mentira”. Isso, dito nos dias atuais é simpático, didático, democrático. Imaginem inserir, como se dizia na época, uma frase dessas no contexto de uma palestra dentro do Palácio do Planalto em pleno regime militar.

Era preciso ter a estatura moral e profissional de Armando Nogueira, então Diretor de Jornalismo da Rede Globo de Televisão. A palestra dele constou do I Seminário Nacional do Sistema de Comunicação Social do Poder Executivo, realizado de 3 a 7 de dezembro de 1979. E justificava: “Por mais que sejam respeitados os valores da segurança nacional, quando se põe a funcionar um aparelho de censura – censura da expressão, censura da opinião – acontece o que aconteceu nos últimos anos”.

De repente – dizia e está nos anais do evento - aquele sentimento baixa aos escalões mais inexpressivos do aparelho policial e aí você começa a receber como um dia recebi, um telefonema de um agente proibindo uma notícia sobre uma batida de carro, porque em um dos carros estava a mulher de um dos agentes, e isso em nome da segurança nacional. Pergunto a vocês: o Palácio do Planalto sabia disso? É claro que não sabia. E é impossível controlar. A coisa desce a níveis grotescos. Por isso que digo que ela é burra.

Como assessor de Imprensa do então governador Lavoisier Maia, representava o Rio Grande do Norte no evento promovido em Brasília por iniciativa do ministro Said Farhat e neste painel sobre rádio e televisão, me sentia à vontade em relação ao primeiro, mas com relação à TV era mero e curioso espectador. Ao abrir esse painel, o criador do Jornal Nacional, falecido há uma semana aos 83 anos de idade, fazia questão de bater na tecla mais sensível - a da censura.

Após registrar que a falta de liberdade de informar é fenômeno que marcava a carreira de todos os jornalistas nos últimos 30 anos, completava: “Eu tenho uma experiência que considero curiosa, pois tendo vindo de jornal, vim do setor de jornal que mais se experimentar a alegria da liberdade de informar que é o esporte. No entanto, com essa experiência de 25 anos escrevendo sobre esporte, aprendi que o exercício da liberdade está intimamente ligado à responsabilidade.

E dava um exemplo: “Não conheço editoria em jornal na qual se respire tanta liberdade de informar, de opinar, e de palpitar como no esporte. Os empresários de jornal, os donos de jornal não dão muita “bola” para a editoria de esporte. Então, a turma “deita e rola” em matéria de liberdade. Como se sabe, se você disser que o Fluminense tem um time de perna de pau, se disser que o Botafogo deveria estar na segunda divisão, se você disser que Zagalo é um defensivista, o dono do jornal não toma conhecimento. Agora, se você disser que o Bradesco está meio maroto, aí se prepare. Então, se eles concentram todo o seu controle nas áreas sensíveis do seu negócio e abandona o esporte, o esporte é uma coisa feita mais ou menos por esporte.

Foi aí – dizia Armando Nogueira – que fiz meu aprendizado, desancando zagueiros, descendo a lenha em dirigentes. Por uma dessas ironias da vida, passei desse extremo de liberdade ao jejum também extremo da televisão. Foram 10 anos duros na televisão – o JN começara dia 1º de setembro de 1969 - 10 anos de censura, 10 anos de desconfiança, mas tínhamos de conviver com a censura como convivemos com um mal, com uma doença, felizmente esta curável.

Fazia uma autocrítica do jornalismo da Globo – “cobrar, como se cobra, posições de vanguarda, numa sociedade de retaguarda, não faz sentido”. Na palestra inseriu frases como: “O simples fato de se acenderem as luzes para registrar um flagrante de rua, na televisão, suscita uma mudança de comportamento. As pessoas procuram usar o veículo. Em qualquer manifestação, a presença da televisão faz com que o entusiasmo redobre”. Considerava a televisão um reflexo da sociedade e preconizava que no dia em que a sociedade resolver buscar tendências novas, a televisão vai ser mais críticas, aí refletindo fielmente a sociedade que ela não modela, mas reflete.

Se pudéssemos, dizia Armando Nogueira, resumir essa coisa numa máxima, numa pequena equação: Estado forte, sociedade fraca, televisão fraca. Sociedade forte, estado fraco, televisão forte. Não tem saída – aduzia - “É preciso que a sociedade seja forte, para que a televisão seja mais forte, para que a televisão seja até mais ousada, refletindo a sociedade”. Apontando saídas, desenhava com todas as tintas a porta da abertura e da liberdade.

 

(*) Wellington Medeiros é Jornalista. 

. Artigo publicado também no Jornal de Hoje, edição de 05.04.2010

 

 

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Leia também a coluna Notícias, de Wellington Medeiros, no Site da Rede Tropical

 

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