OBSERVANDO

Wellington Medeiros (*)

welingtonmedeiros@bol.com.br 


 

Questão de hermenêutica

            Wellington Medeiros*

 

Nos anos 60, era comum durante qualquer discussão, uma das partes sair com uma frase que muitas vezes fazia com que os argumentos fossem deixados de lado e tudo acabasse em acordo e de forma bem humorada: “Acho que essa é mesmo uma questão de hermenêutica”. Ou seja, de interpretação, significado dessa palavra de origem grega. A frase foi também durante algum tempo a preferida do então deputado estadual Moacyr Duarte (29/10/1924 – 15/08/1997), um dos maiores oradores que já passaram pela tribuna da Assembléia Legislativa do Rio Grande do Norte e que chegou ao Senado como suplente do sogro Dinarte Mariz, falecido em pleno mandato em 1984.

Neste fim de semana, uma polêmica envolvendo o cachê pago pela Prefeitura de Natal ao padre Fábio de Melo para o show em comemoração aos 410 anos da cidade, marcando igualmente abertura de um evento da Arquidiocese – o centenário - fez a frase voltar a ser lembrada, quando em meio ao show ele pediu licença para explicar ao público detalhes que o fizeram chegar a R$ 221 mil. “Fui professor de hermenêutica e sei que toda frase pede contexto e, por isso, gostaria de explicar a vocês algo de bastidor”. O bastidor - deixou claro - envolvia outros shows que foram cancelados, a necessidade de alugar um jato para vir de São Paulo com a equipe e os equipamentos e o pagamento em dobro aos profissionais que trabalham com ele.

Foi mais além: Diante dos contratempos, ligou na véspera para a prefeita Micarla de Sousa, sugerindo o cancelamento do show. Viria sozinho, como padre, participar da celebração dos 410 anos da cidade e do evento da Igreja. Mesmo assim, a Prefeita de Natal decidiu manter o compromisso. O padre, de 38 anos e um dos atuais fenômenos da música brasileira, ainda anunciou que durante uma próxima e breve temporada de shows que fará pelo Nordeste pretende vir a Natal, cantar de graça e com a renda destinada a uma obra de caridade. Ainda pediu desculpas pela notícia maldosa: “Querem colocar o caráter da gente em notícia curta. Não deixe que façam isso com você”.

A transparência e a firmeza com que tratou o assunto, certamente fizeram o padre Fábio de Melo crescer ainda mais na admiração dos católicos ou não, num momento em que a fórmula mais usada, especialmente pelos políticos, é jogar os temas polêmicos para debaixo dos tapetes, no caso do palanque em que se apresentou cercado e aplaudido por milhares de pessoas. Quem acompanha a trajetória vitoriosa do padre Fábio de Melo já se acostumou à franqueza com que ele trata qualquer tema durante as pregações. Mineiro de origem humilde – o pai violeiro - mesmo assim dono de uma extensa carreira acadêmica dedica-se ao trabalho de evangelização desde os 16 anos.

Um dos momentos mais emocionantes da sua pregação é quando fala do problema do alcoolismo e cita o próprio pai alcoólatra. Conta - arrancando lágrimas de muitas pessoas – o drama vivido pela mãe e os sete irmãos ao saberem do pai bêbado caído nas sarjetas, o apelo que fez para que ele parasse, no que foi atendido tempos depois. Quem expõe um tema pessoal desse nível, não teme como ficou demonstrado, esclarecer – como o fez, publicamente – as especulações sobre o contrato superior a R$ 200 mil para uma apresentação em Natal. Viu-se que, além de detalhar elevadas despesas, não é um show qualquer, mas uma hora e meia de pregação, reflexão e uma história de vida de sucesso dentro da linha poético-religiosa que adotou, deu certo e marcou os 410 anos da cidade do Natal.

Essa preocupação do padre Fábio de Melo por si só justifica a importância da sua presença entre nós, uma vez que o uso abusivo de bebida alcoólica exerce papel preponderante no agravamento das estatísticas na época das festas de Natal e Ano Novo. Festas que deveriam significar apenas momentos de alegria e descontração expõem as pessoas a acidentes de trânsito, violência, afogamentos, conseqüências desagradáveis e imprevisíveis. Bastavam esses dois exemplos - a preocupação com o problema do alcoolismo, como a lição de transparência que deu no episódio do cachê - para provar que tudo é mesmo uma questão de hermenêutica. Os prejuízos e danos mostrados nas estatísticas policiais e os processos que rolam – alguns em segredo - na justiça se transformados em valores pecuniários dariam a melhor e mais contundente resposta.

Comparando é que o povo entende.

 

 

(*) Wellington Medeiros é Jornalista. 

. Artigo publicado também no Jornal de Hoje, edição de 28.12.2009

 

 

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Leia também a coluna Notícias, de Wellington Medeiros, no Site da Rede Tropical

 

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