OBSERVANDO

Wellington Medeiros (*)

welingtonmedeiros@bol.com.br 


 

Agora é sem limite

            Wellington Medeiros*

 

Enquanto este JH circulava nesta sexta-feira com a manchete “PF desarticula e prende quadrilha que assaltava bancos, lojas e agências dos Correios no RN”, outra – ou membros desta mesma quadrilha – agia na cidade de Pendências, a 200 quilômetros de Natal, de forma ousada, planejada e desafiadora. Depois de cortarem o sistema de comunicação do Destacamento da Polícia Militar, oito bandidos renderam o vigia do prédio da Prefeitura Municipal, arrancaram e levaram o caixa eletrônico do Banco do Brasil. Na mesma semana – a última do mês de agosto – marcada por crimes de toda ordem, outra notícia agravava o problema da falta de segurança: os roubos de carros no Centro Administrativo – núcleo do poder. Prova de que o crime agora não tem qualquer noção de limite.

Uma certeza: a violência, que antes estava presente nas grandes cidades, espalha-se pelas cidades menores, na medida em que a criminalidade procura novos espaços. Agora, além da violência urbana, outro desafio é conter o processo de interiorização. É preciso, dizem uns, atuar de maneira eficaz tanto em suas causas primárias quanto em seus efeitos, como a operação “Torre de Babel” – o nome fala por si só - realizada pela polícia neste domingo em Natal. É preciso, afirmam outros, aliar políticas sociais que reduzam a vulnerabilidade dos moradores das periferias, sobretudo dos jovens, à repressão ao crime organizado. Uma tarefa que não é só do Poder Público, mas de toda a sociedade civil.

Faz seis meses - um tempo razoável - do último artigo que inseri aqui sobre a escalada da violência. Repercutia – como se diz – um artigo assinado por Kerubino Procópio Lélio de Moura, sob o título “Armai-vos uns aos outros”, no qual fazia uma análise do Estatuto do Desarmamento que na avaliação dele “não mudou coisa alguma nos índices de criminalidade. Ao contrário, aumentou o número de criminosos, tornando mais confortável o assalto, perdendo ele, inclusive o encanto das incertezas e da aventura. Eles chegam, rendem despojam as vítimas, agora num clima consensual e ridículo, onde alguns perdem os pertences, outros, a vida e, todos, enfim a dignidade vencida. Homem desarmado é bandido realizado e agradecido”.

Outro fator preocupante nesses últimos meses é a instituição, pela criminalidade, da pena de morte, há muito banida no Brasil. Os jornais trazem diariamente casos de mortes misteriosas, praticadas contra jovens na grande maioria, envolvidos com drogas. São dívidas pagas com a própria vida, queima de arquivo. Enquanto é proibida no Brasil e são incontáveis os argumentos filosóficos e doutrinários, a pena de morte esbarra na irreversibilidade do mal do erro judiciário, obstáculo intransponível, eis que torna a sanção irreparável. O assassinato legal pelo Estado é negação do Estado Democrático, cuja primeira função é garantir a vida e a liberdade. O ilegal está aí no nosso dia-a-dia – neste fim-de-semana não foi diferente - tratado com descrença e indiferença das pessoas, através de comentários como este: “Foi bom. É um a menos...”.

Como o crime ultrapassa todos os limites, o exemplo vale para lembrar um pequeno poema que ficou muito conhecido nos anos 1970, de autoria de Bertolt Brecht (1898-1956) grande dramaturgo alemão: “Primeiro levaram os negros, mas não me importei com isso. Eu não era negro/Em seguida levaram alguns operários, mas não me importei com isso. Eu também não era operário/Depois prenderam os miseráveis, mas não me importei com isso, porque eu não sou miserável/Depois agarraram uns desempregados, mas como tenho o meu emprego também não me importei/Agora estão a levar-me, mas já é tarde. Como eu não me importei com ninguém, ninguém se importa comigo”.

Contam-se nos dedos – como já disse certa vez – as atividades imunes à ação dos bandidos. Como um vírus, a bandidagem entre um artigo e outro, não poupa mais sequer as casas funerárias, mesmo estas associadas aos locais onde muitos deles já deveriam estar. Até mesmo porque bandidos e traficantes compram armas no contrabando – chegam a fazer pose para a TV. Aí não há registro nem cadastro, enquanto a sociedade, desarmada e com medo, é barbarizada diariamente pelos bandidos – como ocorreu ontem com um grupo de estudantes de fotografia, na Pedra do Rosário – que, bem a propósito, pelo menos em alguns casos de flagrante, voltam a ter os retratos divulgados pela imprensa. E até agora não se viu um só “inocente” se queixar.

 

 

(*) Wellington Medeiros é Jornalista. 

. Artigo publicado também no Jornal de Hoje, edição de 31.08.2009

 

 

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Leia também a coluna Notícias, de Wellington Medeiros, no Site da Rede Tropical

 

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