OBSERVANDO

Wellington Medeiros (*)

welingtonmedeiros@bol.com.br 


 

Carteirada

            Wellington Medeiros*

 

Para discorrer sobre muitos dos temas ao longo desses quase seis anos nas páginas deste JH, edição das segundas-feiras, o primeiro passo foi sempre puxar pela memória, auxiliado por alguns dos arquivos já bem marcados pelo tempo. Diferente, o de hoje origina-se de um envelope, depositário fiel de um hobby, ou seja, guardar as carteiras e identificações que obtive ao longo dos anos, incluindo cartões e crachás profissionais. Contei 73, incluindo desde a de estudante da Escola Industrial de Natal até as consideradas básicas, identidade, trabalho, motorista, CPF e a do plano privado de saúde.

O tema foi provocado por uma sucessão de fatos mostrados na televisão e nos quais pessoas se julgam tão importantes que, mesmo visivelmente embriagadas – e já foi dito que o poder embriaga – arrotam prepotência através da frase manjada, repudiada e covarde: “Sabe com quem está falando”. Muitos já ouviram resposta no mesmo tom – “Quem o senhor pensa que é?”, entre outras menos suaves. Trata-se da famosa “carteirada”, comportamento constrangedor, cujo único objetivo é obter vantagem e em alguns casos humilhar o semelhante.

É certo que algumas carteiras são necessárias no dia-a-dia. Basta se dirigir a um consultório médico para ouvir das atendentes, antes de qualquer cumprimento, o pedido da carteira do plano privado de saúde. Percebe-se que 99% das consultas exigem a apresentação da carteira. Não é diferente na rede pública, onde agora é cobrada a carteira do SUS. No trânsito, o motorista sabe ser obrigatório o porte da CNH e na maioria das atividades, lá está a cobrança do número do CPF e não adianta afirmar que sabe decorado. Tem que mostrar a carteira. São normas legais, necessárias e aceitáveis.

O mesmo ocorre com estudantes e idosos – já tem até a carteira do idoso - para a obtenção do desconto legal no transporte coletivo, em eventos esportivos e culturais, policiais e oficiais de Justiça em muitas autuações, magistrados e advogados para acesso a áreas restritas e mesmo jornalistas, no desempenho da atividade. Em alguns desses casos podem existir abusos, mas nada comparável à falsificação. É o caso de porta-documento com insígnia colorida em relevo, parecido com carteira de polícia usado por espertalhões.

Neste domingo, com as carteiras espalhadas numa mesa, tentei lembrar se havia usado alguma delas para enfatizar algum dos cargos que exerci. Foi em Fortaleza, início dos anos 80, aonde chegara à bordo do jatinho do Governo do Estado, pilotado pelo comandante Graco Magalhães Alves e que conduzira desde Natal o governador Lavoisier Maia em trânsito para Brasília. Identificados através da carteira e colocados na sala “vip”, em seguida notamos o Governador na fila de uma lanchonete. E não conseguimos convencê-lo de que iríamos providenciar o lanche ou coisa parecida, já que era começo da tarde.

Mesmo exercendo o cargo de Governador, não procurava ostentação e ainda na fila atendeu a um jornalista que dava plantão no aeroporto. O fato faz lembrar uma frase do frei Betto, ao concluir que poucos sabem lidar com funções de poder. Dizia em artigo sobre nepotismo & carteirada: “Não me restrinjo ao poder político. Refiro-me a qualquer poder: diretora de escola, gerente de banco, polícia, síndico de prédio etc. Ao se revestir de um cargo, a maioria despe-se de sua individualidade. A função passa a ser mais importante que a pessoa”.

Sobre a carteirada, afirma: “Há quem de tal modo se agarre ao poder - qual andor que lhe projeta o ego - que já não lhe basta declinar o nome ao ser socialmente apresentado. É preciso enfatizar o cargo, a proeminência do título gravado no cartão de visitas, troféu inestimável. Conheci – diz o frei dominicano - quem, nomeado, trocou de postura física, de casa, de hábitos sociais, de mulher e de caráter”. E conclui: Bebida forte, o poder embriaga.

Assim, o status mal administrado, pode fazer com que sejam cometidas gafes e grosserias. A carteirada é um fato constrangedor, utilizada por pessoas sem equilíbrio emocional, valendo-se do poder econômico ou social. Esquecendo que a credibilidade tem origem em atitudes dignas e corretas. Estas sim, o maior status e que nem dinheiro nem poder conseguem comprar.

 

 

(*) Wellington Medeiros é Jornalista. 

. Artigo publicado também no Jornal de Hoje, edição de 24.08.2009

 

 

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Leia também a coluna Notícias, de Wellington Medeiros, no Site da Rede Tropical

 

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