OBSERVANDO

Wellington Medeiros (*)

welingtonmedeiros@bol.com.br 


 

Tudo por um clipe

            Wellington Medeiros*

 

Quem acompanha a cena política norte-rio-grandense a partir da década de 60, deve ter percebido as muitas mudanças ocorridas com o passar dos anos. É que ao longo do tempo, além da legislação eleitoral sempre aplicada com mais severidade, muitos políticos foram perdendo o ímpeto dos discursos inflamados que, para lembrar luta, valia tudo em termos de descompostura. Safado, corrupto, ladrão, eram os adjetivos preferidos. Alguns passavam dos limites e iam mais longe, até côrno e f.d.p. A ordem era radicalizar dentro do ensinamento: os amigos não têm defeito. Os inimigos se não tiverem, eu boto.

Somente quem viveu de perto essas diferentes fases, pode hoje comparar com o clima mais civilizado de se transpor o período eleitoral, como ocorre atualmente. A legislação endureceu e encontra os veículos de comunicação - salvo pequenos incidentes de percurso, até porque ninguém está numa campanha para escolha do bispo ou da madre superiora - conscientes de que a lei existe e é para ser cumprida. Se é severa, draconiana, limita o direito de expressão, paciência, é a Lei vigente. Ponto final.

O ordenamento atual é todo oriundo da Lei 9.504/97, de 30 de setembro de 1997 - editada após a atual Constituição, aprovada no dia 22 de setembro de 1988, portanto há exatos 20 anos. Sua última alteração surgiu em 1999, dia 28 de setembro, incluindo no artigo 41: "Ressalvado o disposto no artigo 26 e seus incisos, constitui captação de sufrágio, vedada por esta Lei, o candidato doar, oferecer, prometer, ou entregar ao eleitor, com o fim de obter-lhe o voto, bem ou vantagem pessoal de qualquer natureza". Pena: multa de 1.500 Ufir e cassação do registro ou diploma.

Pinço, porque chama mesmo atenção, a palavra prometer. Fosse cumprida ao pé da letra - taí uma medida necessária - acabaria com toda esse ridícula e  insuportável lengalenga, sempre beirando ao engodo, à mentira e a enrolação. Quem não se recorda do então candidato à reeleição Lula da Silva, passeando sobre um palanque armado ao lado do Machadão, só faltando mesmo prometer leite encanado. Garantia a então candidata à reeleição entupir o elefante - o mapa do RN lembra o paquiderme - de obras.

Hoje, seis anos depois - isso mesmo, quatro do primeiro mandato e dois do atual - o que se vê é o Estado de pires na mão e ouvindo a mesma catilinária: as refinarias foram para Pernambuco e Maranhão; o aeroporto de São Gonçalo nem se toca mais no assunto. Sem se falar nos momentos de emergência e sofrimento do povo vitimado pelas enchentes no interior e na capital em que não se viu a presença, sequer e-mail de um assessor do quinto escalão de qualquer dos ministérios. Véspera da eleição municipal, volta ao Rio Grande do Norte, mais uma vez de mãos vazias, mas para cumprir uma agenda, assim resumida: autorizar nova refinaria, termoaçu e comício.

A refinaria, todos sabem, não passa de uma prevista e necessária ampliação na base de Guamaré, existente há muitos anos; a termoaçu foi construída pela Iberdrola (leia-se Cosern) em parceria com a Petrobrás e o comício, na verdade o único objetivo da visita ao Estado. Evento que foi antecedido por uma peregrinação de ministros, nenhum deles conseguindo responder a pelo menos duas perguntas da imprensa: 1) porque a visita somente agora no período eleitoral e 2) qual a obra importante que estavam trazendo ou iriam inaugurar. Zero - nada. Conversa fiada. Resultado: uma gravação para o Guia Eleitoral. Um clipe - filmete de 30 segundos.

A presença de Lula em Natal serviu para outra constatação. O presidente da República veio ao Rio Grande do Norte tentar baixar o nível da campanha. Basta olhar as fotos do palanque. Arrogante, raivoso, irado, inebriado pelo poder, desrespeitando até correligionários da base que o apóia em Brasília. Faltava serenidade, o mínimo que se espera de um Presidente da República. Nem Fernando Collor chegou a tanta empáfia. Tudo isso a pretexto de defender uma candidata surgida de um acordão nascido no Planalto - inviabilizado segundo todas as pesquisas - e assim tentar ressuscitar algo natimorto. Ou colocar a última pá de terra.

Quanto aos ataques pessoais ao senador José Agripino, nada a estranhar. Esquisito seria Lula elogiar um dos maiores líderes da oposição no Congresso Nacional, visto como o responsável direto pelas grandes derrotas do governo no Congresso, como o fim da famigerada CPMF - o imposto do cheque - e das filas de velhinhos aposentados para recadastramento nas filas da Previdência. Sem falar na luta contra a contribuição dos aposentados para o INSS. E presença respeitada na tribuna denunciando os escândalos dos correios, dos bingos de Waldomiro Diniz e José Dirceu; mensaleiros e mensalões, dinheiro na cueca, cartões corporativos, apagão aéreo e agora recentemente pedindo, com firmeza, esclarecimentos sobre os grampos da ABIN. Firmeza e sobriedade.

 

 

 

(*) Wellington Medeiros é Jornalista. 

. Artigo publicado inicialmente no Jornal de Hoje, edição de 22.09.2008

 

 

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Leia também a coluna Notícias, de Wellington Medeiros, no Site da Rede Tropical

 

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