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NATAL

10/10/2008

SEU SEBASTIÃO

Belas lembranças vida afora

--- Walter Medeiros

            O sol escaldante da tarde ilumina o alpendre da pequena casa centenária, enquanto ele caminha com seus passos leves e anciãos, da altura dos seus 92 anos, pelo pátio onde brincou, trabalhou, viveu, na infância e juventude. Nascido durante a Primeira Guerra Mundial, ele viveu numa caatinga que atravessou o século XX com as experiências do cangaço, das secas, da chegada dos automóveis, do forró à luz de lamparina e do povoamento de Pendências. Agora seu passeio se dá entre os cavalos mecânicos que a Petrobrás instalou para produzir petróleo.

            Sebastião Rodrigues Bezerra é o seu nome. Filho de Manoel Rodrigues e Maria Isabel Rodrigues, teve sete irmãos: Antônio, Francisca, João, José, Luís, Rosinha e Miruel (Sinhô). Viveu num tempo em que as distâncias eram vencidas em lombo de animal e aos poucos foi assistindo as mudanças e delas participando ativamente. Conhecia a se lembra ainda de cada detalhe das coisas do sertão, inclusive todas as peças que formam um carro de boi, as vestimentas dos vaqueiros, os apetrechos e utensílios da antiga zona rural.

Aniversário de 90 anos, em 2006

 

Caminhões

            Quando jovem, andava léguas para dançar forró, todo arrumado com as roupas impecáveis da época, na cabeça o indispensável chapéu. Na volta, a coragem do sertanejo em noites escuras, enfrentando pelo caminho as assombrações das silhuetas formadas pelas plantas da beira do caminho. Era a recompensa pela semana de trabalho pesado, cuidando de roçados e do gado que a família sempre teve. Seu pai morreu cedo e lhe coube uma boa quantia de reses, mas não era seu sonho cuidar de gado a vida toda. Nem era também o sonho dos seus irmãos, que preferiram se envolver com serviços de transporte.

            Com catorze anos Sebastião já ia, nas horas vagas, para a casa de seu irmão mais velho, que comprara uns caminhões para deles fazer seu meio de vida. Ali aprendeu a dirigir e cuidar dos veículos, a ponto de consertar, desmontar e montar motores. Tudo isso apesar de seu físico esguio de peso pena. Ajudava em tudo no trabalho do irmão, onde chegou a transportar mercadorias de Macau para muitos outros municípios nordestinos.

Uma vida ligada à história do automóvel

 

            Misto

Pelos idos dos anos quarenta, Abelardo Rodrigues (pai do atual prefeito de Alto do Rodrigues) tinha uma viagem para São Paulo e precisava de um motorista para dirigir um caminhão, enquanto ele dirigiria outro. Sebastião aceitou o convite e seguiu mundo afora. Era um misto pau de arara, cheio de retirantes. Uma viagem inesquecível pelas estradas de barro do Nordeste e Sudeste, até que conheceu o asfalto a partir do Rio de Janeiro. Como homem prevenido, até uma bolsa de remédios levou e foi o que salvou uma mulher de cólicas insuportáveis, com a ingestão de Atroveran.

            Espalhados entre Natal, Macau, Pendências, seus irmãos assumiam atividades várias. Um deles era funcionário da LBA (Legião Brasileira de Assistência) em Natal e o chamou para ocupar uma vaga de motorista que surgira. Ele resistiu por não ser habilitado ainda. Mas o irmão o convenceu: “vestido com a farda de motorista da LBA e com o quepe mostrando o distintivo da República, ninguém vai pedir seus documentos”. Assim mesmo se deu. Ele virou motorista da LBA e passava tranqüilamente até pelas correntes de Natal (Av. 15 e Quintas). Depois providenciou a “carta” de motorista e no exame de volante, que na época era realizado por trás do Instituto Histórico, surpreendeu o inspetor ao estacionar com rapidez e precisão.

            Padre

            Seu Sebastião ficou realizado quando passou a receber ordem de ir buscar ou deixar autoridades nas atividades da LBA. De repente estava ele de motorista, nada mais nada menos que de Aluízio Alves, deputado federal; e do Padre Nivaldo (Depois Arcebispo de Natal), que tinha atividades no Abrigo Juvino Barreto e outros locais. Era muito trabalho para dirigir pelas dunas da Avenida Alexandrino de Alencar e outras, em Tirol, Lagoa Seca e Morro Branco. Recorda que na primeira vez em que Aluízio Alves foi a Pendências chamou todo orgulhoso sua mulher, Dona Neusa, para assistir. Sintonizaram com o seu discurso e nunca mais votaram em outro candidato quando Aluízio estava na disputa.

            Proposta melhor o levou de volta para perto da família, a fim de trabalhar nas salinas, como motorista da Companhia Comércio e Navegação (CCN – Atual Cirne). Orgulha-se de ter se aposentado e nunca ter recebido qualquer registro desabonador em seu prontuário. Passou por uma batida, na qual abalroaram a Kombi que dirigia e a perícia constatou que a culpa pelo acidente foi do outro condutor.

            Irmãos

            Depois de aposentado não quis ficar parado e resolveu comprar um táxi – um Corcel 1970, que dirigiu por alguns anos na praça de Macau, até que resolveu mudar de vez para Natal, onde a sua família já vivia e com a qual passava sempre o fim-de-semana. A cada domingo ele almoça arrodeado de filhos e netos e sempre tem histórias para contar sobre as coisas do seu tempo.

            A família hoje tem a mulher, Neusa, seus seis filhos vivos, Marcone, Graça, Fátima, Múcio, Mércia e Marcos Antônio, além de dezoito netos e seis bisnetos. Naturalmente se encontra regularmente também com genros, noras, sobrinhos, sobrinhas e amigos que sempre estão por perto.

            Sempre tem uma resposta espirituosa e inesperada para cada questão. Num domingo em que almoçava com a família, perguntaram-lhe porque no Credo tem uma parte que se refere a “Jesus Cristo, seu único filho” e as pessoas se dizem filhas de Deus. Ele respondeu prontamente: “é porque são todos irmãos de criação”.

 


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