WALTER MEDEIROS

walterm.nat@terra.com.br 




 

CENCENÁRIO DE LUIZ GONZAGA

Programa especial da Rádio Poti no dia da morte do Rei do Baião

Participação dos jornalistas Rubens Lemos e Albimar Futado

(O início não pôde ser resgatado)

--- Walter Medeiros* – waltermedeiros@supercabo.com.br  

 

28.05.2012

 

Rubens Lemos – Senti o momento em que Luiz Gonzaga se sentida deslocado por uma máquina que levava alienação, aculturação, em todos os sentidos e principalmente no campo da Música Popular Brasileira. Luiz Gonzaga contava coisas e falava coisas que dizem única e exclusivamente respeito ao que é melhor e maior: sofrimento e a alegria do povo, a verdade, a essa coisa telúrica do sertão. O ludismo, o lúdico da palavra de Luiz Gonzaga tem coisa que qualquer cidadão entende, compreende, sente, vibra, chora, se alegra, como a Triste Partida, que é uma coisa, é uma gesta. É bem verdade que é um poema que antecede ao próprio Luiz Gonzaga enquanto sucesso, porque é de Patativa do Assaré, um gênio do cordel, da literatura de cordel desde país, deste nordeste. A Triste Partida é a verdadeira gesta do nordestino, do homem sertanejo, que perde sua terra com a seca, com essas ingratidões e injustiças sociais que Luiz Gonzaga soube transportar e transmitir para a música. Então, morreu para mim não apenas um gênio. Não esse gênio fabricado; um gênio da terra, porque Luiz Gonzaga era xique-xique, cardeiro, era o serrote, era o grotão, era a cerca, a cerquinha de vara dos sertões, era o boi, era o aboio, era o gibão, era o chapéu estrelado do vaqueiro, era o cangaceiro, mas era o beato, era o religioso, era a superstição, era o místico, era o artista que conseguiu, dos cabarés do canto do mangue do Rio de Janeiro traduzir o nordeste nas suas mais diferenciadas formas de expressão: a forma alegre, a forma triste e a forma sofredora.

RUBENS LEMOS E LUIZ GONZAGA

 

O jornalista Albimar Furtado comenta e pergunta: “Luiz Gonzaga sobreviveu a movimentos musicais importantes das décadas de 50 e 60 sem ter se rendido a nada. Ele não se desviou do seu caminho, e se manteve, e ficou no gosto do povo e se manteve fiel aos seus sonhos e aos seus admiradores. Isso foi difícil prá ele, não foi, Rubens?”

Rubens Lemos – Muito difícil. Ele viu que alguma concessão teve de fazer logo no início da carreira. Ele fez a concessão, por exemplo, de tocar samba, de tocar tango prá sobreviver romper o cerco daquilo que queria anteriormente. Mas com relação a esta intemporalidade de Luiz Gonzaga e a esta influência de Luiz Gonzaga sobre todos os movimentos que vieram depois, e principalmente a partir da década de 60, fica provado uma coisa: quando Geraldo Vandré, por exemplo, fazia música de protesto, e que era considerada também uma expressão de nordestinidade, você há de ver, basta pegar os chamados clássicos de Geraldo Vandré, que estão não apenas impregnados, mas ali a gente vai localizar um Vandré sorvendo de Luiz Gonzaga muita coisa para a sua criação, para a sua arte. Da mesma maneira que nós vamos encontrar Gilberto Gil no movimento Tropicalista, que é posterior à Bossa Nova e isso a tudo, não é, um movimento que foi uma espécie de ruptura cultural no Brasil, propondo renascimento de alguma coisa nova que, no fundo – eu tinha um programa aqui, exatamente na Rádio Poti – e não tem nada de novo: tudo isto que está sendo feito já foi feito por Luiz Gonzaga. O Procissão. Há um compositor que eu considero excelente, excelente, excelente, chamado Tom Zé, ganhou um festival, se não me engano em 1969 com uma música chamada “São Paulo, meu amor”. “São Paulo, meu amor”, que tem uma frase - é um achado, que tem um verso que é um achado, quando ele diz: “São oito milhões de habitantes / de todo canto e nação /...” e termina fechando: “Aglomerada solidão”. É uma coisa maravilhosa do ponto de vista poético, etc Mas acontece que ganhou um arranjo de Rogério de Prá, do maestro, do músico moderno, avançado, quase além da cibernética, que tanto quanto Hermeto Pascoal, que é daqui do nordeste, que é de Alagoas etc Aí eu dizia neste, num programa aqui na Rádio Poti, mas peraí, isso é baião puro, gente. Onde Tom Zé “São, São Paulo / Meu amor / São oito milhões de habitantes / de todo canto e nação /”. Veja-se a base: procissão foram marcas definitivas da Música Popular Brasileira e nos ciclos da Música Popular Brasileira. Então Luiz Gonzaga foi, na realidade, o grande influenciador, o grande influenciador de toda uma geração. Luiz Gonzaga influenciou até, pode não acreditar, mas Luiz Gonzaga, que fez o xote, que criou o baião, mas fez samba e começou a inundar o Brasil e o mundo com a sua arte, através de xotes como “Xamego”, “Forró”, quer dizer, forró não é um ritmo, forró é um gênero musical. Muita gente confunde o forró com um ritmo, mas é um gênero. Que vem daquela coisa dos ingleses da Great Western, que botavam anúncios lá pras bandas do Ceará, um cartaz dizendo, em inglês, “Hoje tem for all” - para todos. Então o “For all” se transformou numa corruptela, Luiz Gonzaga pegou bem e fez o forró. Daí o forró. Então, Luiz Gonzaga é um ser – eu digo é porque um artista não morre, é como uma estrela, ele apenas se encanta. Então, Luiz Gonzaga não morreu, como dizia já o próprio irmão dele, Zé Gonzaga, quando houve um desastre e Gonzaga quase perde um olho, isso em 1953, e Zé Gonzaga fez um baião que pouca gente conhece ou lembra: “Luiz Gonzaga não morreu / Nem a sanfona dele desapareceu / Seu automóvel na virada se quebrou / Seu zabumba se amassou / Mas o Gonzaga não morreu.” Então eu acho que Luiz Gonzaga não morreu nem a sanfona dele desapareceu. Ele é, na minha opinião, não uma enciclopédia; ele é o gerador de enciclopédias neste país. Ele produziu e continuará produzindo matéria prima para os filólogos da Música Popular Brasileira, para os amantes da Música Popular Brasileira, para os sertanejos, cada vez mais sertanejos, em todos os sentidos, porque um homem que faz “Riacho do Navio” ele já se imortalizou pela sua própria criação. Ele, criatura e criador do “Riacho do Navio”, quando ele diz “Eu quero ficar longe das terras civilizadas”, já entendia, há 20, 30, 45 anos, o que seria essa civilização, onde a poluição, em todos os níveis, seja ela sonora, seja ela ecológica, seja ela humana, levaria nós mesmos, seres humanos, a sentir vontade telúrica de voltar às raízes, à terra, o sertão, não é, da macaxeira, do jerimum, não é? Então Luiz Gonzaga interpretou tudo isso.

RUBENS LEMOS E ALBIMAR FUTADO

 

Albimar Furtado - Esse toque humano da letra da música que Luiz cantava, você vê que de fato existiu. Luiz Gonzaga deu o toque musical dele, mostrou pro país toda sua qualidade, toda sua interpretação, sua música consta de interpretação, foi sucesso e voltou. Voltou pro sertão pernambucano. Essa coisa humana, que é fundamental.

Rubens Lemos – É de arrepiar. Porque ele fez exatamente na volta dele ele fez uma coisa maravilhosa. A letra é um poema, onde ele diz: “Estou aqui de novo / Junto com meu povo / Minha gente amiga / Quem me conhece sabe que eu detesto briga / Uma saudade enorme / Deita, come e dorme / No meu coração / Remédio indicado / prá quem tá errado / É pedir perdão”. Isso é uma coisa! Ele voltando de onde nunca saiu. Às suas raízes, ele se abraçando ao xique-xique, como se o xique-xique não tivesse espinhos. Tivesse flor, tivesse folhas e tal e coisa. Então, é este Luiz Gonzaga que não adianta dizer, ontem mesmo, à noite, um amigo me perguntava: “Ou Rubens, e porque só agora estão lembrando de Luiz Gonzaga?”. Digo: acontece que Luiz Gonzaga não precisou pedir prá ser lembrado. O povo, na sua expressão maior, sempre cantou, chorou com Luiz Gonzaga. Viveu com Luiz Gonzaga. Então, essa coisa humana de Luiz Gonzaga, aquela cara dele, carrancuda, pura máscara, puro defeito de feiura. Luiz Gonzaga era um ser acima da beleza, porque ele tinha essa arte dentro dele. Quando, por exemplo, ele quis esnobar o velho Januário, pai dele, o velho Januário pai dele, depois de vencer no Rio, quebrar tudo isso – se eu tiver falando demais, me avisa, então, viu? Tá na hora, viu? -  Aí lá vem Luiz Gonzaga pensando que era o dono do mundo, num terno velho de linho, aquele linho S120, todo de branco, com uma sanfona prateada, 120 baixos, aí voltou prá Pernambuco, não é? Só que ele esquecia que tinha um pai chamado Januário. Por onde ele passava tava pensando que o povo ia falar “Chegou Luiz Gonzaga”. Ele já o Rei do Baião. Só que a turma dizia “Peraí, Luiz, tem um veinho aqui que você tem que respeitar, chamado Januário, foi quem ensinou tudo a você, pelo fole de 8 baixos. E o próprio Luiz, reconhecendo isso, fez uma música que é ontológica: “Quando eu voltei lá no sertão / Com meu fole prateado / Só de baixo, cento e vinte” aí vai poraí. Quando se encontra com o velho Jacó aí ele diz – vou ver se pego o tom aqui, mais ou menos: “Luiz respeita Januário / Luiz respeita Januário / Luiz, tu pode ser famoso / mas teu pai é mais tinhoso / E com ele ninguém vai, Luiz /

Luiz, respeita os oito baixos do teu pai!”. Essas coisas, e Luiz era de uma família inteiramente musical. Era uma família, era uma orquestra de baixos: José Gonzaga, o velho Januário, Zé Gonzaga, Luiz, o outro irmão que me esqueço agora o nome, todos sempre tocaram ou acordeom ou a sanfona ou fole. Tudo isso faz parte da vida de Luiz Gonzaga. Que infelizmente morreu, mas felizmente não acabou.

RUBENS LEMOS

 

Participação do jornalista Rubens Lemos em programa especial da Rádio Poti no dia da morte do Rei do Baião

Raquel (Apresentadora da Rádio Poti) – Rubens, prá finalizar a nossa homenagem ao Rei do Baião, Luiz Gonzaga, fale rapidamente: Luiz Gonzaga e o jovem.

Rubens Lemos – Ah! Luiz Gonzaga sempre foi jovem. Uma prova disso é que em nenhum momento, seja em uma vaquejada, em festas de vaquejada no interior, seja em qualquer parte em que Luiz Gonzaga se apresentasse, e eu testemunhei, por exemplo, em uma ocasião ele esteve aqui no Rio Grande do Norte, em Ceará-Mirim, mais ou menos 60% do público era jovem. Isso há dez anos, há mais ou menos dez, doze anos. Então ele se identificava muito com os jovens. Se identificava demais com os jovens, porque ele trazia na sua música isso que hoje os jovens vão pros clubes de Natal fazer o chamado forró. Costuma-se chamar agora de brega e chique, mas dentro, baião, xote e tal e muita música que tá aí nas paradas de sucesso, a nível de juventude, não passam de baiões, de xotes, de maracatus, xaxados, estilizados pelo eletrônico. Pelo lado elétrico e eletrônico da vida, no lugar das cordas, das guitarras, se ouve isso. Há, por exemplo, um cantor no Rio Grande do Norte que grava uma música que faz lembrar muito essa identificação e essa influência de Luiz Gonzaga na música, e a juventude moderna. Que é essa: “Foi numa tarde linda / Eu me lembro ainda / No interior”, que é de um cantor aqui de Natal, Fernando Luiz. Então, procure, busque, ouça e você sente por dentro dela, não o espírito, mas a própria expressão viva de Luiz Gonzaga influenciando. A juventude pode estar certa de uma coisa: do ponto de vista musical, do ponto de vista cultural, do pondo de vista de expressão de nordestinidade, ela não continuará sendo juventude sem voltar para a reflexão de um nome, de uma vida, de um artista chamado Luiz Lua Gonzaga. Ele está presente nos jovens, como está presente nos velhos, como estará presente na própria vida do país.

 

 



 

 
   

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