HUMANIZAÇÃO E

ATENDIMENTO

Walter Medeiros  walterm.nat@terra.com.br 


28.12.2007

Cachaça no hospital

--- Walter Medeiros*

O leitor do Jornal de Hoje Primeira Edição José Dantas conta um fato chocante, decorrente de uma realidade triste que se vive no Brasil, onde os médicos não são preparados para atender nem para entender algumas doenças e alguns esboçam ainda por cima uma carga de estupidez bélica. Uma médica que mandou um auxiliar deixar no chão uma mulher caída e desacordada, dizendo, aos berros, que “o problema dela é cachaça”. A decisão da Doutora, cujo nome o missivista não teve oportunidade de saber, foi tomada sem que fosse feito qualquer exame na mulher.

A atitude da médica contraria tudo que de humano se espera de um atendimento num pronto-socorro, mas lamentavelmente (não gosto de usar e quase nunca uso esta palavra, mas aqui é necessário) é fato corriqueiro, por uma séria de motivos, dos quais nem precisamos enumerar tantos. Basta lembrar uma grande contradição que existe na formação do médico. Médico é formado para atender doente. A Organização Mundial de Saúde considera o alcoolismo uma doença, capitulada em mais de dez locais da Classificação Internacional de Doenças.

O alcoolismo atinge diretamente mais de dez por cento da população, prejudica mais da metade, constituída de familiares, e afeta a população inteira, devido às suas conseqüências. Entretanto, os médicos saem do curso de medicina sem saberem praticamente nada sobre alcoolismo. Além disso, o poder público vem negligenciando no acompanhamento e apuração do alcoolismo, haja vista as falhas nas estatísticas, que não citam o alcoolismo como causa-mortis ou causa de patologias. Um indivíduo que vai a óbito devido a coma alcoólico engrossa as estatísticas das paradas cardíacas e outras.

Mas voltando ao caso da médica citada pelo leitor, ele atropelou mais uma tentativa do poder público de melhorar o atendimento, com a implantação da classificação de risco, segundo a qual deve ser atendido em primeiro lugar quem tiver mais necessidade. Será que aquela mulher com problema de “cachaça”, no dizer da médica, não teria necessidade de ser atendida imediatamente, o que preocupou o auxiliar?

Nesta época do ano, muitas pessoas embriagadas não são alcoólatras; são pessoas que bebem e ficam naquele estado por muitos motivos, o que deveria, ao contrário, preocupar a médica, para prestar o atendimento com mais cuidado. Por que a médica nem examinou a “paciente” e tirou aquela conclusão? Se é cachaça não merece atendimento? Parece um péssimo exemplo, num momento em que o Ministério da Saúde começa uma campanha de combate ao uso imoderado de álcool.

 

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*Walter Medeiros é jornalista e bacharel em Direito em Natal-RN. Autor dos livros “Onde está o atendimento?” Ed. Viena e "Abelardo, o alcoólatra"

( http://paginas.terra.com.br/arte/cordel/ap009Abelardo.htm ).

 

 

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