CRÔNICAS E

COMENTÁRIOS

Walter Medeiros  walterm.nat@terra.com.br 


16022008

Mergulho na escuridão 

--- Walter Medeiros

Ano passado, em setembro, escrevemos um artigo veiculado no JH 1ª Edição sobre o filme “Tropa de Elite”, mostrando que as películas que anualmente chegam do Brasil para a Alemanha vêm contribuindo para denegrir a imagem do nosso país. Os filmes mostram um aspecto da violência extremada de algum lugar e passa a impressão para o mundo inteiro de que aquele lugar é o Brasil, de norte e sul. Teve gente que não gostou e chegou até a considerar direitista o conteúdo do artigo. Quem me conhece sabe que não milito em alas direitistas, mas sinceramente o “futuro” que estamos vivendo me frustrou.

Pois bem! A “Folha de S. Paulo” da quarta-feira passada traz matéria mostrando que "’Tropa de Elite’ gera mais ódios que amores em Berlim”. Segundo a enviada especial a Berlim, Silvana Arantes, “O concorrente brasileiro ao Urso de Ouro no Festival de Berlim, "Tropa de Elite", de José Padilha, exibido anteontem, teve uma recepção da crítica dividida entre amores e ódios. Mais ódios do que amores”.

A revista norte-americana "Variety", descreveu o filme como "uma monótona celebração da violência gratuita que funciona como um filme de recrutamento de seguidores fascistas". A "Hollywood Repórter" publicou entrevista e reportagem e chamou-o de "um filme constrangedor sobre policiais assassinos". A crítica afirma que "o pressuposto básico do roteiro escrito por Padilha, Rodrigo Pimentel e Bráulio Mantovani é que todo mundo no Rio é corrupto, especialmente as autoridades".

A crítica do jornal francês "Le Monde", publicada no blog de cinema do diário, diz que “Não é preciso ser hipersensível para ver no filme uma apologia da tortura e das execuções extrajudiciais", segundo Thomas Sotinel. O alemão "Der Tagesspiegel" disse que, no retrato do "mundo pavoroso e sem lei" que o filme faz, "não há zonas brancas e negras; tudo é escuro". Ressalta, no entanto, que "Tropa de Elite" não é fascista. "E nisso [fascismo], como você sabe, somos especialistas", comentou. A revista inglesa "Screen" e o jornal "Berliner Zeitung" avaliaram o filme favoravelmente, com muitos elogios.

Na mesma época em que escrevi o artigo “Imagem distorcida”, o jornalista Urariano Mota, de Pernambuco, escreveu uma crítica ao filme e se sentiu isolado, por dizer que "Se o diretor bem entende, embora até aqui não haja percebido, há um abismo entre o ponto de vista de um personagem e o ponto de vista da obra. Um torturador - como personagem - pode narrar na primeira pessoa, em qualquer gênero. Mas triste e mal realizada e infeliz é a obra que se contamina dessa pessoa”.

A estréia de Tropa de Elite no Festival de Berlim, nesta semana, renovou aquele texto do ano passado, segundo Urariano. E agora ele acrescenta: Tropa de Elite é o cinema da barbárie, pela barbárie, para a barbárie. É muito constrangedor, mas ao que se percebe continuamos manifestando a tristeza de ver o Brasil chegar mais uma vez à Europa com a sua imagem distorcida.

 

16022008

TROPA DE ELITE OU DE ESQUADRÃO

--- URARIANO MOTA*

Em outubro de 2007 publiquei uma crítica ao filme de José Padilha em La Insígnia, sob o título de "Tropa de Elite, o encanto da tortura". Divulgado depois no Novae e na Revista Fórum, o sentimento que me deixava o texto não era confortável. Eu não teria sido injusto, preconceituoso, ou visionário? A repercussão do filme, do público à crítica especializada, me isolava. Em comentários recebidos, houve até quem me recomendasse a paz dos cemitérios. Ou uma pistola no crânio, pelo menos, para eu saber o que é bandido... Quem escreve corre riscos, dos quais o mais leve é mergulhar em um imenso ridículo. Várias vezes nos equilibramos em corda atravessando um abismo, e jamais teremos certeza se caímos em um vazio sem eco.

Naquela crítica escrevi: "Se o diretor bem entende, embora até aqui não haja percebido, há um abismo entre o ponto de vista de um personagem e o ponto de vista da obra. Um torturador - como personagem - pode narrar na primeira pessoa, em qualquer gênero. Mas triste e mal realizada e infeliz é a obra que se contamina dessa pessoa. Quando o público nos estádios de futebol, numa espontânea manifestação que deixou José Padilha emocionado, quando a torcida no Maracanã dá um grito de guerra que veio de Tropa de Elite, o público apenas apreendeu o realizado em seu filme, a saber: o Capitão Nascimento é um herói, é bom torturar, é justo e ético mandar crânios de bandidos para o inferno. No mínimo, é maneiro asfixiar bandidos até o sangue estourar no saco plástico".

E mais: "É natural, diria, é 'natural', portanto, que o público veja no Capitão Nascimento um novo herói. Ele é o cara 'sangue bom', ele é o cara do bem, porque possui família linda, classe média, ele é um esposo que depois de um dia de sangue e tiros acaricia o ventre da mulher que dorme, ele é o cara que ouve as palpitações do filho no meio da selva da favela, que interrompe uma caçada contra humanos para comemorar, aos gritos, 'meu filho nasceu!', ele é um homem que tortura e humilha comandados, mas por uma boa causa, porque, afinal, busca um substituto para um câmbio de vida. Alô, alô, George W. Bush, você precisa de um cinema assim para os soldados no Iraque".

A estréia de Tropa de Elite no Festival de Berlim, nesta semana, renovou aquele texto do ano passado. Confesso que foi com alegria, vá lá, com uma perversa alegria que li as palavras de Jay Weissberg na Variety: "o longa de José Padilha é uma monótona celebração da violência que funciona como um filme de recrutamento para delinqüentes fascistas... trata-se de uma produção com um inescapável ponto de vista direitista ". E mais esta, no Le Monde, assinada por Thomas Sotinel: "Tropa de Elite é feito segundo a receita do neoconservadorismo hollywoodiano - montagem frenética, câmera epiléptica, narrativa que não deixa nenhum espaço à ambivalência. Não é preciso ser hipersensível para ver no filme uma apologia da tortura e das execuções extrajudiciais".

Por isso acrescento agora, sem medo: Tropa de Elite é o cinema da barbárie, pela barbárie, para a barbárie. Ele reúne indústria, grana pesada e apelação nessa nova pornografia, que é a exibição sem dó de violência. Fuck, baby, fuck, nada como uma explosão na cara. Para quê reflexão, para quê melhor arte? "O muro de Berlim caiu", declarou o vitorioso diretor. Ou traduzindo: a fronteira que exigia da arte uma elevação da animalidade caiu, para agrado geral do investimento. Um blockbuster não se faz com preocupações estéticas, ó atrasados.

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* O autor é pernambucano. Escritor e jornalista. Autor do romance “Os corações futuristas” cuja paisagem é a ditadura no tempo de Médici.

 

23.09.2007

 

Imagem distorcida

--- Walter Medeiros *

Numa noite de julho de 2004 vivi um momento bem interessante em um café do centro de Stuttgart (Alemanha), ao ar livre, juntamente com 8 brasileiras, entre elas minha mulher, Graça, minha cunhada Mércia - que reside naquela cidade - e outras integrantes de um Centro Espírita que o medium Divaldo Franco visita e onde faz suas pregações sempre que vai à Europa. Em dado instante a conversa girava em torno da violência no Brasil. Todas aquelas brasileiras que moram naquela cidade debulhavam, algumas até ansiosamente, argumentos para reforçar a tese de que o Brasil estaria transformado num mar de violência. Foi um momento triste para mim, por sentir que não só elas, mas seguramente colônias inteiras de brasileiros e brasileiras têm essa impressão e tratam de reforçá-la Europa afora, em detrimento da nossa amada Nação.

Rebati veementemente os argumentos que apresentavam, apelando até para que elas refletissem e evitassem aquela sinistrose, pois poderiam contribuir para construir uma imagem melhor do nosso país, sem mentiras nem maquiagens. Mas percebi que esta imagem distorcida do Brasil nem precisava daquele filme que fizeram em Hollywood sobre tráfico na saúde e que gerou tantos protestos. Os cineastas brasileiros já haviam se encarregado de empurrar o Brasil para o poço – não sei quando chegará ou se chegará ao fundo. Aquelas amigas baseavam-se nas locações que conseguem levar o Brasil aos festivais internacionais e até ao salão do Oscar, mesmo sem premiação: violência, corrupção, pornografia e miséria. É como se cada filme fosse o Brasil. Elas vinham de duas experiências traumáticas, que foram “Central do Brasil” e “Cidade de Deus”.

Naquele momento o noticiário internacional destacava o confronto dos traficantes e outros bandidos com as Polícias e até o Exército, como se a violência do Rio de Janeiro e São Paulo formassem cada ponto da imagem do Brasil. Claro que não estamos vivendo num paraíso nem estamos afirmando que a violência não existe no país inteiro. Ocorre que da forma que tratam, a violência finda multiplicada e a imagem do país deformada no exterior. Lá pouca gente sabe que o Governo Lula, por questões políticas, deixou de atender ao Rio de Janeiro e São Paulo, com as verbas que combateriam a violência e evitariam prejuízos incalculáveis e irrecuperáveis. As torneiras fechadas do Planalto estão sucateando todo o sistema de segurança do Brasil, inclusive as Forças Armadas.

Mas voltemos ao cinema. Os cineastas brasileiros quase não sabem criar. Eles copiam a realidade e a transformam em ficção pelo simples fato de mudarem os nomes dos personagens. Quase todos os filmes brasileiros mostram o jeitinho corrupto e desonesto dos criminosos como se cada fato refletisse a ação do nosso povo. Não gosto de usar palavras negativas ou triste, mas excepcionalmente considero este fato lamentável. Talvez até agora estivéssemos encontrando um bom caminho, com o filme “O homem que desafiou o diabo” (cujo nome é mais uma mostra do inferno astral que o brasileiro vive), ali sim, uma ficção que passeia pelo inconsciente brasileiro com criatividade e sentido literário. Talvez estivéssemos, disse, pois “As pelejas de Ojuara” e um ou outro filme mais, não são suficientes para repercutir o Brasil.

À sua frente está ganhando a mídia e o mundo o “Tropa de Elite”, que trata de destruir mais um pouquinho o conceito que o Brasil tenta firmar no mundo. Tentam justificar que faltava mostrar a violência do ponto de vista dos policiais. Violência rima com incompetência. Vez por outra lembro uma tarde em que o jornalista e jurado Sérgio Bittencourt arrancou aplausos do auditório e do Brasil inteiro, com certeza, no programa do Chacrinha, ao dizer que sonhava com o dia em que daria como notícia o nascimento de uma flor; se possível, em edição extraordinária. Cadê a criatividade? Precisamos de qualidade: filmes inteligentes e atrativos para o público.

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* Walter Medeiros é jornalista e bacharel em Direito em Natal-RN. Autor dos livros “Onde está o atendimento?” Ed. Viena e "Abelardo, o alcoólatra"

( http://paginas.terra.com.br/arte/cordel/ap009Abelardo.htm ).

 

 

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