HUMANIZAÇÃO E

ATENDIMENTO

Walter Medeiros  walterm.nat@terra.com.br 


 

Al-Anon, um recurso a mais para profissionais

       

       --- Walter Medeiros

 

            O Comitê de Área do Al-Anon no Rio Grande do Norte – COMARN me surpreende ao fazer o convite para ser orador em uma reunião dirigida aos profissionais. O tema é “O AL-ANON como um recurso a mais para o trabalho do profissional”. Senti-me na obrigação de aceitar, enxergando, ao mesmo tempo, nessa concordância, que estava assumindo uma imensa responsabilidade. Mas a vivência que fomos acumulando através dos anos seria um bom suporte para qualquer situação difícil que pudesse encontrar no desempenho dessa tarefa.

            Primeiramente, a aproximação entre Al-Anon e os profissionais decorre de um fato muito importante: existe um problema em comum. Não podemos dizer que da mesma forma que o alcoolismo atinge os familiares dos alcoólatras atingiria as empresas, porque em cada ambiente ele assume uma conotação e aspectos bastante diferenciados e particularizados. Mas podemos afirmar que guardadas essas diferenças, o problema atinge a ambos de forma acentuada.

            Conta a literatura que Lois, a mulher de Bill W., fundador de Alcoólicos Anônimos, apesar de toda sua postura elegante, delicada, fina, teve seu momento de rompimento com aquela sua paciência e, em determinado dia, revidou a um argumento do marido jogando-lhe um sapato em suas costas. Refletindo sobre aquele momento, ela percebeu que era necessário algo mais. Nasceu em seguida Al-Anon. Da mesma forma que podemos recordar que a história do A.A. mostra que as relações de trabalho eram bastante atribuladas.

            Problema Social

Se dermos uma olhada na estrutura social e legislativa de hoje, encontraremos elementos muito preocupantes. Primeiro, a pesquisa mais completa que temos – e o Brasil é falho em suas estatísticas, diz que tudo que o Brasil arrecada com impostos sobre fabrico e venda de bebidas, significa 2,8% do PIB (Produto Interno Bruto). Mas para reparar os estragos que a bebida provoca, gasta 5.4%. Ou seja, A União financia a bebedeira. Pois cabe a ela manter os hospitais, as casas de saúde, corpos de bombeiros, SAMU, Justiça, Previdência, tudo para atender aos efeitos do alcoolismo, que gera doentes, acidentados, criminosos e desajustados.

            Ainda tem mais. Quando foram definir uma lei para regulamentar a propaganda de bebidas no Brasil, apareceu o maior absurdo. Declararam em lei que cerveja não é bebida alcoólica, embora seja responsável por grande parte desses problemas aludidos anteriormente. Da mesma forma que corre descontrolado o consumo de bebidas alcoólicas por menores de 18 anos e a fiscalização daquela lei não funciona. Basta ligarmos o rádio de tarde, para ouvir propaganda de cachaça. A lei diz que propaganda de cachaça só pode ser veiculada depois das 21:00 horas.

            Além dessas observações gerais, podemos enxergar momentos que realçam a importância do Al-Anon. Alcoólicos Anônimos tem um enunciado de Bill, que diz: “Onde qualquer um, seja onde for, estender a mão pedindo ajuda, quero que a mão do A.A. esteja sempre ali; e por isto eu sou responsável”. Este anunciado chega ao Al-Anon e aos profissionais – médicos, psicólogos, assistentes sociais, pedagogos, advogados, juízes, promotores, religiosos, profissionais de recursos humanos, que vivem o problema na prática do dia-a-dia.

            Lembro do caso de um funcionário alcoólatra, que teve seu tratamento patrocinado pela empresa onde trabalhava e suspendeu a bebida, pelo menos por algum tempo. Hoje ele está bebendo. Existem outros que fizeram o mesmo tratamento que ele e estão sóbrios. Qual a diferença? 1. A mulher daquele que voltou a beber estava acostumada com o dinheiro, que tomava conta devido a questão judicial apresentada com apoio da empresa. Quando ele deixou de beber, claro que voltou a tomar conta do seu salário. 2. Tão logo terminou o tratamento, a mulher promoveu uma festa de 15 anos da filha, com farta bebida alcoólica. Ali ele não bebeu. 3. Numa visita que a assistente social fez em sua residência, já abstêmio, percebeu o ressentimento latente na mulher, ao ver alguém perguntar pelo seu marido: “tá lá dentro cuidando do outro” (O outro era um belo cachorro que ele resolvera criar).

Recurso a mais

Quando pensamos em Al-Anon como um recurso a mais para o nosso trabalho, temos de ver que a sua presença qualifica o cuidado, haja vista que ele tem participação mais direta no problema. Sabemos que muitos tratamentos são frustrados por falta de clareza na sua compreensão, abordagem e encaminhamentos. Por outro lado, é notório que a educação dos profissionais não contempla o alcoolismo como deveria, desde as escolas médicas a todas as demais formações. Todas as categorias têm, em algum momento, que tratar do problema alcoolismo.

Nesse momento Al-Anon cumpre papel importante, ao mostrar aos profissionais os seus princípios e seu funcionamento. Por outro lado, é preciso que os profissionais assimilem com profundidade essa mensagem, para estarem certos do que estarão sugerindo nas suas empresas. Trata-se de casos de stress, frustrações e muitos outros sentimentos, exatamente aonde Al-Anon chega para mostrar a forma de deixar de querer resolver os problemas pelos outros.

Ocorre-me o caso de um dirigente de uma empresa que tinha problemas com álcool. Fez uma despesa imensa e sua assinatura no cheque estava irreconhecível. O banco não pagou. Uma representante do bar foi até a sua empresa cobrar a dívida. Ele não se encontrava – com certeza estava bebendo naquela hora – e dois amigos que o esperavam resolveram rachar a conta, cada um dando a metade, para serem reembolsados depois. A intenção visível era evitar problemas para o alcoólatra. A mulher dele soube e criticou. Até ele mesmo disse que não seria a melhor forma de resolver a dívida. O fato é que estivemos diante de um grande exemplo de facilitadores. Amigos que procuram preservar o alcoólatra, mantendo uma imagem falsa para o público. Os facilitadores podem ser, e são predominantes, os familiares.

Doença

Os livros que tratam do alcoolismo – e temos muitas obras competentes – mostram que ele é considerado doença pela Organização Mundial de Saúde desde 1967 e pode ser diagnosticado em mais de dez situações da Classificação Internacional de Doenças. Mostram também que o alcoolismo tem três aspectos estudados: é progressivo, incurável e fatal. Progressivo, porque vai se instalando paulatinamente e cada vez mais acentuando-se a sua face. Incurável, porque ninguém descobriu uma forma de um alcoólatra beber moderada ou socialmente. Fatal, porque provoca a morte do alcoólatra e de outros, das mais variadas formas.

Esse componente progressivo tem um desdobramento em três fases: adaptação, tolerância e dependência. Na adaptação, a pessoa tem os primeiros contatos com o álcool, para criar coragem, sentir os efeitos, fazer gracejos, etc. Nesse ponto, os familiares, namoradas ou namorados, maridos ou mulheres, também acham engraçado o que fazem naqueles momentos de desequilíbrio. Num segundo momento, os cientistas afirmam que instala-se a tolerância, que se apresenta através da forma como o alcoólatra bebe. Muitos conseguem beber exageradamente e parece não ter problema. Os outros se embriagam e o alcoólatra continua bebendo. O organismo suporta muita bebida. Por fim, vem a dependência: aquele estágio onde o indivíduo não consegue viver mais sem o álcool.

Nessa jornada, o excesso de álcool afeta o desempenho no cargo. Por mais competentes que sejam os alcoólatras, findam caindo em falta. Dependente do álcool, o indivíduo não deve ser considerado alguém com “fraqueza de caráter”, em “decadência moral”, “desprovido de força de vontade” ou “irresponsável”.  Até porque, como diz a literatura, “o alcoolismo é um segredo muito mal guardado”, pois durante a embriaguez ele se manifesta completamente. E é nesse ambiente onde atua Al-Anon, junto às famílias e às empresas, para explicar como se enfrenta a chamada negação e como agir perante os facilitadores.

Com toda força que têm as palavras, entre tudo que já vi referente ao alcoolismo, o mais forte foi o título de um vídeo sobre o assunto. Ele reflete a vontade sincera, honesta e verdadeira do alcoólatra para se cuidar e deixar de beber: “Amanhã eu paro”.  Nesse ponto aparece a figura da negação, pois a coisa é evidente para todos, mas o alcoólatra nega totalmente que bebe em demasia ou que qualquer de seus problemas se relacionam à bebida. Junto com esta figura, vem também a do facilitador – aquele familiar ou amigo que resolve os problemas para que as coisas erradas feitas pelo alcoólatra não cheguem ao conhecimento de ninguém. A mulher que telefone para o trabalho dele, mentindo, para dizer que ele está doente. Doente, ele está; só que não do que ela diz e sim do alcoolismo. Ou o colega de trabalho que acoberta seus erros para evitar punições, sem perceber que mais tarde o quadro será mais grave e ao invés de punição simples poderá vir a demissão.

O caminho

Algo muito importante para se ter clareza na família e na empresa. O quê se busca não é fazer simplesmente com que o alcoólatra pare de beber. O mistério está em fazer algo para ele querer parar de beber. Enquanto ele não quiser, nada poderá ser feito por ele. Poderá ser feito pela família, que aprende em Al-Anon a conviver com o alcoólatra na ativa e fora dela e as empresas, que também podem apreciar o assunto com as mais variadas abordagens técnicas, inclusive patrocinando tratamento. Nesse momento problemas financeiros, conjugais, sociais, emocionais, psicológicos, espirituais e físicos, entre outros, apresentam-se de forma confusa. Mas é possível entender tudo nesse campo. Al-Anon ensina para o caso que devemos sempre “segurar o que amamos com a mão aberta”. Esse é o segredo. Não adiantam as atitudes possessivas. O caminho é a conscientização.

Os profissionais encontram aliados no Al-Anon, que lhes passam informações sobre o alcoolismo, que é acionado no momento em que a maneira de beber de alguém está incomodando. Daí é possível o profissional estender a mão aos familiares, tirando-os do desânimo e da solidão, quando se informam e se conscientizam da programação. Tudo isso se dá num processo em que a chave da libertação é “pensar em si em vez de pensar no alcoólatra”. Aprendendo a conviver com o problema, encontra-se a forma de enfrentá-lo.

O alcoólatra afeta quem convive com ele através da manifestação dos efeitos da doença. Aqui o profissional passa a conviver com uma visão mais completa, em vista dos problemas causados pelo álcool: acidentes, absenteísmo, indisciplina, relacionamento errado com colegas e público. Al-Anon surge como um recurso a mais quando encoraja e compreende o familiar do alcoólatra, acolhendo-o e proporcionando-lhe forte alívio. Mostra que o alcoolismo é uma doença que atinge a família. E que em muitos casos o alcoolismo pode ser identificado através dos familiares. Esta Irmandade pode não substituir o aconselhamento profissional, mas pode reforçá-lo.

            Recursos

            Quais os recursos que podemos dizer que os profissionais dispõem para enfrentar os problemas relacionados com o consumo imoderado de bebidas alcoólicas por parte dos funcionários? A lei e as normas da empresa, Jurisprudência, Programa de Controle Médico de Saúde Ocupacional e  Alcoólicos Anônimos.

A CLT, no seu Art. 482 diz que constituem justa causa para rescisão do contrato de trabalho pelo empregador incontinência de conduta ou mau procedimento, desídia no desempenho das respectivas funções; embriaguez habitual ou em serviço; violação de segredo da empresa; ato de indisciplina ou de insubordinação; abandono de emprego; ato lesivo da honra ou da boa fama praticado no serviço contra qualquer pessoa, ou ofensas físicas, nas mesmas condições, salvo em caso de legítima defesa, própria ou de outrem; ato lesivo da honra ou da boa fama ou ofensas físicas praticadas contra o empregador e superiores hierárquicos, salvo em caso de legítima defesa, própria ou de outrem.

Em todas essas situações o alcoolismo pode ser o motor principal do problema. Até quinze anos atrás, a Jurisprudência tendia para assegurar direitos aos alcoólatras, pois os tribunais decidiam pela reintegração dos empregados demitidos por justa causa, nos casos em que a empresa não tivesse dado oportunidade de tratamento. Atualmente, a tendência é confirmar a demissão. Não adianta nem argumentar que se trata de pessoas preparadas e nas quais a empresa investiu, nem que seria necessário tratar o alcoolismo como doença.

O Programa de Controle Médico de Saúde Ocupacional – PCMSO é outro instrumento que pode ajudar a empresa a identificar, abordar e tratar casos de alcoolismo. Lamentavelmente, o problema não é visto com a qualidade que seria exigida, tendo em vista que a maioria dos médicos desconhece o alcoolismo como doença e as formas de enfrentar esse problema.

Alcoólicos Anônimos é outro recurso, tão forte que já vimos médicos dizerem que depois que se esgotam todas as possibilidades de tratamento pela medicina, a solução é Alcoólicos Anônimos. Aqueles médicos até confessam que não sabem direito o que acontece naquela Irmandade, mas sabem que é um recurso que dá certo.

            Como sabemos que o A.A. cuida do alcoólatra e o alcoolismo afeta a vida da família, o problema agravar-se-ia se o Al-Anon não tivesse participação nesse processo. Costuma-se dizer que o alcoolismo é uma doença reflexiva, vez que afeta não só o que bebe, mas também seus familiares, amigos, vizinhos, patrões, colegas de trabalho e muitos outros. Por tudo isso é recomendável que o profissional tenha à mão todas as informações sobre o escritório e os grupos de Al-Anon: endereços e horários de funcionamento. Através dos grupos familiares, muitos problemas com o funcionário alcoólatra podem ser enfrentados resolvidos ou evitados.

 

 

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*Walter Medeiros é jornalista e advogado em Natal-RN. Autor dos livros “Onde está o atendimento?” Ed. Viena e "Abelardo, o alcoólatra" ( http://paginas.terra.com.br/arte/cordel/ap009Abelardo.htm ).

 

 

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