Poemas de CORDEL

Coletânea de versos de Walter Medeiros e outros cordelistas nordestinos

 

Pequeno folheto para o sertão da minha terra

 

--- Walter Medeiros

 

Cidadão, caro leitor,

Dessa vez eu vou contar

Coisas de admirar

Que vivi no interior;

Morando entre as serras

Onde era a melhor terra

Num tempo que já passou.

 

Foi lá no alto sertão

Interior de Alagoas,

Que um monte de coisas boas

Pra minha admiração;

Eu passei em minha infância,

Que era um tempo sem ânsia,

No bater do coração.

 

Pra melhor lhe situar

Quero dizer como era

Sem remancho nem espera

A paisagem do lugar

Era um canto tão lindo

Que pela serra subindo

Demorava a chegar.

 

Tinha uma linda igreja

Onde a gente ia rezar

Outros iam namorar

Inda hoje se corteja

Soltavam até foguetão

Para comemoração

Com salgado na bandeja.

 

Na frente, uma pracinha,

Para onde todos iam

Não importa o que faziam

Não tinha gente mesquinha,

Eucaliptos cheirosos

Rodeavam, majestosos,

A festa das criancinhas.

 

Tinha um cruzeiro na serra,

Destino das procissões,

Chegavam até missões,

Muito carneiro que berra,

Melão Caetano no mato,

Pinto, porco, galo e pato,

Espalhavam-se na terra.

 

Na feira, vendiam tudo,

Cobertor para o frio,

Lamparina e pavio,

Opercata e canudo,

Corda, arreio e limão,

Roupa, picolé, sabão,

Até disco de entrudo.

 

Tinha ainda refeição,

Jerimum, carne de sol,

Casinha de caracol,

Ferrolho, lápis, carvão,

Até cachaça vendiam

E muitos dos que bebiam,

Findavam o dia no chão.

 

 

Mas na rua em que morava

Ouvia samba-canção,

Boleros, que emoção!

Era ali que eu brincava,

Tinha jipe, caminhão,

Passava até lotação,

Com o povo que viajava.

 

E vinham os carros de boi

Trazendo coisas da roça

De choupana ou de palhoça

Eu me lembro quando foi,

Pois eu pegava carona

Até debaixo da lona

Do carro de Zé Totôi.

 

Lembro-me daquela estrada

Meu pai fumando charuto

Um casamento matuto

A noiva toda enfeitada

Depois o arrasta-pé

Você sabe como é,

Uma poeira danada.

 

Mas nem só de alegria

Se vive lá no sertão,

Pois morrendo um cidadão

É feita uma romaria,

Cantando as inselença

Ali todo mundo pensa

No fim dos seus próprios dias.

 

Levei carreira de touro,

Caí até de cavalo,

Vi gente sangrando galo,

Eu tinha um grande tesouro,

Mel de abelha na mata,

No bolso nenhuma prata,

Mas valia mais que ouro.

 

Carreguei água em galão,

Chupei picolé no bar,

Vi o circo se armar,

E um palhaço do pernão,

Papangu no carnaval,

Que vida fenomenal,

A vida lá no sertão.

 

Era tudo muito bom

Cada um no seu lugar

Mas algo de arrepiar

Ás vezes mudava o tom

Pois pra resolver intriga

Tinha quem fosse prá briga

E o tiro virava som.

 

Ah! como lembro do dia

Em que ao amanhecer

Minha mãe chamou pra ver

A cena que se estendia

Pela calçada da gente

Uma cena diferente

Que quase que eu não cria.

 

Três ciganos estirados

Mortos em um tiroteio

Sem direito a esperneio

Foram logo baleados

O grupo pouco pacato

Era formado por quatro

Com mais um do outro lado.

 

O enterro foi chocante

Sem caixão e sem escala

Botaram em uma vala

O grupo de provocante

Que detratou a cidade

E não teve piedade

Mas encontrou a Volante.

 

Porém vamos retornar

Para as lembranças boas

Que não são petas nem loas

Pois pretendo inda contar

Das minhas contemplações

Carregadas de emoções,

De sol, de chuva e luar.

 

Creia que nem energia

Dessa que hoje se tem

Chegava ali nem além

Isso não se conhecia

Quando chegou Paulo Afonso

Para substituir o Ronson

E até hoje alumia.

 

Quando vejo aquela Igreja

Lá no alto da cidade

Sinto uma forte saudade

Tanto que até lacrimeja

Meu olhar quase cansado

Que não esquece o passado

Esteja onde quer que esteja.

 

FIM

 

  

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