Poemas de CORDEL

Coletânea de versos de Walter Medeiros e outros cordelistas nordestinos

 

As revelações de vida da Irmã Alves

 

--- Walter Medeiros

 

Neste momento inspirado,

Quero aqui descrever,

A partir do alvorecer,

Tão belo e iluminado,

A história de uma freira

Que entrega a vida inteira

Num trabalho dedicado.

 

Nascida lá no sertão,

Bem no tempo do cangaço,

Sem nenhum estardalhaço

Descobriu sua missão;

Foi morar na capital,

E viu que o seu ideal

Ia em nobre direção.

 

Tinha uma grande família,

Pai, mãe e seis irmãos,

Todos devotos cristãos,

Andavam na mesma trilha,

Mas sentiu forte emoção,

Descobrindo a vocação,

Sua grande maravilha.

 

Estudou e foi formada

No ofício de educar,

A escola era seu lar,

Já estava encaminhada.

Entrou na congregação,

Da vigem da Conceição,

Não precisava mais nada.

 

Tinha apenas vinte anos,

Estava na flor da idade,

Mas toda sua vaidade

De moça cheia de planos,

Na religiosidade

Evitava, na verdade,

Tudo que fosse profano.

 

Sua feliz trajetória

Cheia de tranqüilidade,

Morando em grande cidade,

Era sempre uma glória.

Mas no mundo de maldade

Uma nova realidade

Mudou o rumo da história.

 

A política envolveu

Sua família inteira,

Quando ela já era freira,

Um grande fato se deu.

A população inteira,

Do letrado à beradeira,

O seu irmão elegeu.

 

Político de valor,

Seu irmão assim já era,

Discursava feito fera,

No Congresso atuou.

Mas não era mais quimera,

Tinha ganhado, pudera,

Para ser governador.

 

Dentro da congregação

A eleição repercutiu;

A irmã Alves sentiu

Um aperto no coração.

Por conta disso partiu,

Durante um tempo serviu

Noutro estado da Nação.

 

Os anos foram passando

E aquela forte mulher

Que mostrava grande fé

Ia mais se acreditando.

Torcia até por Pelé,

Lutava, forte, de pé,

Em um tempo menos brando.

 

Seus irmãos eram Aluízio,

Agnelo, Zé Gobat,

Gente de admirar,

Lutar muito era preciso.

Tinha também Expedito,

Garibaldi, tá escrito,

E Lourdes, com seu sorriso.

 

Pois durante a ditadura

Que dominou o Brasil

A Madre Alves se viu

Em meio a muita amargura

O fato que se seguiu

Os seus irmãos atingiu

Em muitas horas de agrura.

 

Naquele tempo de medo

Onde tudo era injustiça

Ela rezava na missa

Mas olhava pro degredo

Enfrentava todo o mal

Falou até com general

E com Monsenhor Wafredo.

 

Tem muito para dizer

Daquele tempo passado,

Onde o povo sufocado

Vivia de se esconder.

Mas no coração guardado

Ficou o tempo malvado

Que fez sua mãe sofrer.

 

Mas aquilo já passou

É outra realidade

Vivemos na liberdade

Democracia voltou

Para fazer caridade

Tendo força de vontade

Ela nunca se cansou.

 

Em seu traje habitual,

Conversa feito uma Santa,

Sua voz nunca levanta,

Ar sereno, natural,

Sabe que tudo mudou

Mas o tempo acompanhou

Sem mudar sua moral.

 

Mesmo num mundo tão falho,

Tem sua compensação;

Sabe que não foi em vão,

E das histórias me valho.

Colégio da Conceição,

Tem a PAZ no coração,

Por causa do seu trabalho.

 

Nas suas recordações,

Tem fatos interessantes,

Até desfecho chocante

De casais, separações,

Ajuda com a mão amiga

A evitar a intriga

Unindo pais e irmãos.

 

Com ar de serenidade,

Fale de educação,

Criticando a expulsão

De estudante, é verdade;

Para ela uma escola

Só põe aluno prá fora

Se não tem capacidade.

 

Na sua reflexão

Ela é lúcida demais

Fala de excepcionais,

Promove sua inclusão;

Num momento de louvor,

Sentimos o seu amor

Emanar do coração.

 

Tantos anos dirigindo

O colégio Conceição

Tem grande satisfação

De olhar repercutindo

Ações de alunos seus

Que falam em nome de Deus

Sempre que estão agindo.

 

Ela conta o caso de um,

Que é um médico decente,

Fez ela ficar contente,

E não gosta de zum zum,

Seu domingo é diferente,

Dedica aos indigentes,

Atende bem sem lundun.

 

Carmem Alves, na verdade,

É o nome dessa Irmã,

Que tem uma vida sã,

De espiritualidade;

O que podia querer,

Sempre teve, o prazer,

De cultivar a bondade.

 

Mas hoje, segundo ela,

Uma coisa lamentável

Neste mundo admirável

De uma carreira tão bela,

Não temos mais vocação

De Mulher por religião,

É o que os tempos revela.

 

Mas sua bela trajetória

De vida tão exemplar,

Para sempre há de ficar

Guardada em nossa memória;

Sempre vamos nos lembrar

Lá fora e em nosso lar

Esta belíssima história.

 

Até porque revelou

Algo tão fundamental,

Na TV, em um canal,

O que sempre ela pensou:

Em ser a religiosa

De vida tão gloriosa,

De devoção e amor.

 

Termino com o sentimento

De grande felicidade

Em contar essa verdade

Vivendo esse momento;

Nunca pensei em ser frade,

E agora é muito tarde,

Para entrar num convento.

 

Só tenho que desejar

Finalizando essa história

Muitos dias de vitória

Prá essa mulher sem par;

Que ela seja iluminada,

Protegida e guardada,

Conjugando o verbo amar.

 

FIM 

  

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