Poemas de CORDEL

Coletânea de versos de Walter Medeiros e outros cordelistas nordestinos

 

EMBOLADA DO MUNDO DE SHEAKSPEARE

 

--- Walter Medeiros

 

Vou contar, vou contar...

 

Quero contar pra vocês

Uma história interessante

De um povo bem falante

Pois agora é minha vez

 

Vou contar, vou contar...

 

Shakspeare é o autor

Da história de Otelo

Não sei se era donzelo

Pois nisso ele não falou

 

Vou contar, vou contar...

 

Desdêmona, sua mulher

Gerava desconfiança

Pois usava até trança

Iludindo a boa fé

 

Vou contar, vou contar...

 

Iago era o alferes

Um homem muito ardiloso

Dizem que era até dengoso

No trato com as mulheres

 

Vou contar, vou contar...

 

Ele convenceu Otelo

De que a sua bela esposa

Corria mais que raposa

Atrás de um homem mais belo

 

Vou contar, vou contar...

Iago roubou um lenço

Que só Desdêmona tinha

E com sua ma fé todinha

Deixou Otelo suspenso

 

Vou contar, vou contar...

 

Aquele alferes tão falso

Fez mais uma presepada

Pois o lenço da coitada

Ele entregou a Cássio.

 

Vou contar, vou contar...

 

E Otelo inda dizia

Para seu amigo Iago

Que o assunto era vago

Ruindade nela não via

 

Vou contar, vou contar...

 

A coisa era mais braba

Pois com tal descaramento

O Cássio, que home nojento,

Passou o lenço na barba

 

Vou contar, vou contar...

 

Pois o mouro de Veneza

Como Otelo era chamado

Findou sendo corneado

Em sua vida burguesa

 

Vou contar, vou contar...

 

 

Ele era um mouro nobre

Que a República servia

Trabalhava noite e dia

Em meio a ferro e cobre

Vou contar, vou contar...

 

Ao seu redor, senador,

Fidalgo e o alferes

Tinha o bobo e as mulheres

Nem amante ali faltou

 

Vou contar, vou contar...

 

Marinheiro, oficiais,

Gentis homens, mensageiros,

Arautos e violeiros,

Quase ele não tinha paz

 

Vou contar, vou contar...

 

Mas não foi só sobre Otelo

Que o Shakspeare escreveu

Ele também discorreu

Sobre floresta e castelo

 

Vou contar, vou contar...

 

Ele era persuasivo

Em tudo que escrevia

Mesmo sendo fantasia

Era tudo muito vivo

 

Vou contar, vou contar...

 

 

Teve a Lady Macbeth

Que em sua persuasão

Convenceu o seu barão

A esquecer qualquer fé

 

Vou contar, vou contar...

 

Mandou que matasse o rei

Parecia até seu dono

Pois ela queria o trono

Mesmo por cima da lei.

 

Vou contar, vou contar...

 

Era muito egoísmo,

Invejas e ambições,

Dores, ciúmes, paixões,

Tinha até muito cinismo

 

Vou contar, vou contar...

 

Teve o Próspero, coitado!

Que numa estranha aliança

Buscou a sua vingança

Em espíritos aliado.

 

Vou contar, vou contar...

 

A maldade se reveza

Nas horas e nos minutos

Pois Cassius convenceu Brutus

A matar o Júlio César

 

Vou contar, vou contar...

 

E o rei da Dinamarca

Em fantasma transformado

Convenceu seu filho amado

Hamlet a lhe vingar.

 

Vou contar, vou contar...

 

E Romeu e Julieta

Que coisa triste e brutal

Era um feliz casal

Montéquio e Capuleto

 

Vou contar, vou contar...

 

Pois tanto eles se amaram

Mesmo contra os seus pais

Odientos e brutais

Que enfim se suicidaram.

 

Vou contar, vou contar...

 

Ainda nessa viagem

Encontramos a megera

Que nunca se desespera

Mas que levou desvantagem

 

Vou contar, vou contar...

 

O Petrúquio quem domou

A Catarina arredia

Dócil feito uma cotia

Submissa ela ficou

 

Vou contar, vou contar...

 

Aquele autor memorável

Mostrou a fraqueza humana

De forma muito bacana

Por isto é recomendável

 

Vou contar, vou contar...

 

Falou de força, fraqueza,

Também de felicidade,

Gozo, angústia, vaidade,

Era tudo uma beleza

 

Vou contar, vou contar.

 

Shakspeare era fantástico

Dizem muitos entendidos

Em seus romances sabidos

Era leve e era drástico

Vou contar, vou contar...

 

Escrevendo tudo à mão

Era um autor medonho

Basta ler sobre o sonho

De uma noite de verão

 

Vou contar, vou contar...

 

Ali foi muito completo

Para Hermínia e Lisandro

Que de um elfo foi ganhando

Aquele seu novo afeto

 

Vou contar, vou contar...

 

Inefável, uma beleza

Que só pode emocionar

Quando ler e apreciar

O mercador de veneza

 

Vou contar, vou contar...

 

É uma tragicomédia

Onde Pórcia e Bassânio

Tiveram idéia de crânio

Shilock abala a platéia

 

Vou contar, vou contar...

 

Agora vou acabar

Pois senão acaba a graça

Vão ler o texto da farsa

Que eu quero agora lanchar

 

Vou contar, vou contar...

 

Por isso aqui me despeço

Vou saindo de fininho

Mas tudo eu fiz com carinho

Neste montinho de verso.

  

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