Poemas de CORDEL

Coletânea de versos de Walter Medeiros e outros cordelistas nordestinos

 

A impressionante história do Marquês de Clement, em Paris

 

--- Walter Medeiros

 

Muita coisa nesta vida

A mim já surpreendeu;

Mas um dia algo se deu,

Numa manhã colorida,

Que remexeu bem ligeiro

Um auditório inteiro

De gente desinibida.

 

Falavam sobre hospital,

Tratamento humanizado,

Todo mundo concentrado,

Pelo bem e contra o mal;

Pra melhorar a saúde,

Discutiam amiúde

O que saiu no jornal.

 

Buscavam, na realidade,

Um jeito de atender

Qualquer um que aparecer,

Com solidariedade;

Todos hão de merecer,

Na hora que aparecer,

Do campo ou da cidade.

 

De repente aquela sala

Se viu voltando no tempo:

Fundiram o pensamento,

Quase ficaram sem fala,

Voltaram duzentos anos

Talvez mais, se não me engano,

Pareciam uma bala.

 

Quando menos esperavam

Todos se viram em Paris

Arrebitaram o nariz

Grupo importante formavam;

Um membro da burguesia

Um cortejo conduzia

E a cidade acompanhava.

 

Com uma nobre vestimenta,

Era o marquês de Clement,

Em busca de gente sã,

E da doença, que atormenta;

Eles seguiam pelas ruas

Olhando feito umas gruas

Aos trezentos e sessenta.

 

Peruca longa, branquinha,

Sobretudo bem bordado,

Petrechos por todo lado,

Estava todo na linha,

Com ar de preocupado,

Chamava os subordinados

Pra ver o que o povo tinha.

 

A chegada do marquês

Tinha um que anunciava

Uma matraca ele tocava

Simbolizando a vez

Que cada casa esperava

De ver o que se passava

Se algum mal-feito não fez.

 

Outro membro da equipe

Era uma jovem senhora

Que anotava a toda hora

Até sintomas de gripe

Uma tábua como escora

Para o papel que outrora

Servia a gente vip.

 

Como o marquês não sabia

O que vinha pela frente,

Trazia sempre um tenente

E um soldado, que servia

Para ver se de repente

Vinha algum inconseqüente

Atrapalhar a romaria.

 

Outra carroça, no fundo,

Representava o hotel,

Que era o caminho do Céu,

Pra qualquer moribundo;

Se achava alguém ao léu

Ou um doente sem farnel,

Era o melhor lugar do mundo.

 

Nada era brincadeira

Naquela cena diária,

Outra carroça centenária

Cheirava a carpideira,

Pertencia ao cemitério

Um aspecto muito sério

Levado pela coveira.

 

Havia mais, quem diria?

Uma carroça seguindo

O marques que ia subindo;

Um carro da inspetoria,

Ia logo inquirindo

E o ambiente sentindo

Por toda a serventia.

 

O cortejo do marquês

Resolvia os problemas

Sem qualquer estratagema

Tanto trejeito ele fez

Que o povo sem diadema

Esperava o seu sistema

Que passava todo mês.

 

Naquela operação

Nenhuma casa escapava

Tudo ela vasculhava

Descobria até ladrão

Fugitivo, gente brava,

Doente que se alegrava

Com um sinal de atenção.

 

Era hora de partir

Para nova caminhada

Com a equipe formada

Confesso a você que vi

Ele com a voz embargada

Dar a ordem perfilada:

“A la maison, voici”.

 

Assim seguem pelas ruas,

Às margens do rio Sena,

Rua grande e pequena,

O trabalho continua;

Gente clara e morena,

Era uma grande cena,

Pois ali tudo flutua.

 

Lá pelos Champs Elisèes,

O cortejo não passava

Pois ali não precisava,

Era tudo diferente,

Mas lá pelo boulevard,

Ele tinha que passar,

Pois morava muita gente.

 

Percorria os invalides,

A Isle de la Cité,

Você precisava ver,

Que povo comprometido,

Ninguém ficava à mercê

De um  dia adoecer,

Para não ser atendido.

 

Quando ia tomando gosto

Pelas cenas que se via

Algo novo acontecia,

Já era quase sol posto;

Voltei a dois mil e dois

Nem antes e nem depois,

Corri pra olhar meu rosto.

 

FIM

  

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