Diversidade Cultural
Arlindo Freire (*)

 amelofreire@hotmail.com 


10.11.2007 

Menino da Várzea Viaja há 100 Anos

 

Arlindo Freire

 

   As seculares injustiças praticadas pelos governantes com as populações do Vale do Açu foram denunciadas, sem boçalidade, mas com determinação e persistência, através de 4 livros escritos e publicados por um dos homens que mais estudaram e pesquisaram aquela região de ricos potenciais econômico, social, político e cultural.

  O fenômeno em questão aconteceu a partir de 1925 até o presente, sem a badalação dos jornais, revistas e demais meios de comunicação, como se nada tivesse ocorrido na história e política do Rio Grande do Norte, a exemplo do que sempre acontece em se tratando de fatos desta natureza.

  Copia Fiel - Hoje em dia, qualquer estudo sobre aquela região, jamais poderá ser acreditado e fundamentado – se não tiver a consideração ou conhecimento do que foi experimentado e pesquisado por Manoel Rodrigues de Melo, nascido em 1907 - Pendências, quando essa vila fora distrito de Macau.

Manoel Rodrigues de Melo

  Esta afirmação deve começar pelo reconhecimento do prof. Luis Eduardo Suassuna,1 da cadeira de Mestrado em História pela UFRN, com o fato de que ao examinar a tese de um dos seus alunos, sobre o Vale do Açu, ficou sem condições de lhe conceder a nota 10 – porque ele deixou de consultar e incluir no seu trabalho, a obra cultural desse jornalista, escritor, pesquisador, professor e historiador.

  O homem do Vale do Açu – foi estudado em todos os aspectos sociais e culturais por Rodrigues de Melo, desde a sua juventude, apesar de haver saído daquela região aos 18 anos de idade, sem qualquer base para a sua sobrevivência, em decorrência das injustiças praticadas contra os seus pais no meio rural, antes de 19252 – quando a família entrou em decadência.

  Para o conhecimento da vida e pensamento desse homem – o primeiro passo poderia ser a leitura do livro Terras de Camundá – 1971, sob a forma de romance, feita de modo agradável, sensível, simples e humano com alto nível, em que ele apresenta os fatos e acontecimentos da sua viagem a Currais Novos, fazendo a relação destes com os outros do seu local de origem – Felisopólis3 ou Pendências.

   Sem muita explicação e poucas indicações sobre o motivo destruidor, comparável à diáspora, dos Rodrigues de Melo, constituídos de 10 pessoas – foi descrita a perda ou tomada da Fazenda Queimado, onde eles viviam com trabalho e todos os recursos indispensáveis, em condições de nível médio, sem riqueza, mas com dignidade, alegria e bem-estar.

  Quando menos esperavam, os Rodrigues de Melo ficaram sem terra, lagoas e carnaubal, além do peixe, algodão e outros produtos, inclusive o criatório de gado que foi tomado pelo agiota Olivério Fernandes, fornecedor de empréstimo em dinheiro para a fundação da cultura, mediante pagamento depois da colheita.

  No ano daquele financiamento foi impraticável a produção de algodão, em virtude das chuvas irregulares no mesmo período, razão pela qual o produtor Manoel de Melo Andrade Filho, juntamente com seus filhos, não tiveram recursos para saldar o débito com Olivério, ao contrário do que esperavam fazer no prazo acertado.

  Então, por esse motivo, o pai do futuro escritor, foi atingido com o “além da queda coice”, isto é, depois de ver a sua terra tomada, também ficou sem o local de moradia com a sua família, apesar do compromisso assumido por Olivério no sentido de que o seu compadre e familiar da sua esposa – continuassem morando na casa daquela fazenda4 que lhe pertencia.

  - Quem suportaria, em plena juventude, todo esse massacre em cima de sua família, sabendo que dali por diante a miséria estava de cortinas abertas para o seu mundo do futuro?

   No início, meio e final do seu livro Terras de Camundá, o autor faz questão de mencionar o velho escravo com esse nome, vivendo em Felisópolis-Pendências, durante o século 19, quando morreu nessa condição e foi a primeira pessoa5 sepultada no cemitério daquela localidade, seguida por outras criaturas humanas – brancas e pretas, iguais em corpo e alma, assim como na vida e na morte.

  Na perspectiva filosófica, M. Rodrigues de Melo – MRdeM, através dos escravos negros e brancos das Terras de Camundá, mais precisamente de toda a população do Vale do Açu, desde Pendências e do Baixo-Açu, faz o relato histórico, político, econômico e social de uma situação da miséria injustificável, sem razão de ser para o homem – se este tivesse os meios necessários para o aproveitamento dos recursos naturais existentes naquele espaço físico.

  Outro pesquisador, jornalista e escritor do Vale do Açu e Rio Grande do Norte, jamais teve a capacidade e coragem de pensar e escrever à semelhança do que fez MRdeM, não somente em jornais, também em livros, acerca do homem e da terra naquele Vale, assim como de quem viveu e continua, nas serras e planaltos em contorno dele.

  Esta dimensão da obra rodriguiana ressurge de forma indireta, em diferentes períodos do autor, desde a sua juventude, quando trabalhava 14 horas por dia, no armazém Caboré, em Currais Novos, sem os direitos trabalhistas, mas, somente com os deveres estabelecidos pelo comerciante da livre iniciativa, em favor de si, negando sempre o outro semelhante.

  Na condição de pobreza e simplicidade, com poucos e minguados recursos financeiros para sua alimentação, vestuário, saúde e lazer – o jovem Manoel Rodrigues de Melo freqüentou os dois primeiros anos da escola de Segundo Grau, em regime noturno, depois do trabalho diurno, em companhia de numerosos colegas, naquela mesma situação, de olhos abertos para o futuro.

  O futuro de MRdeM foi chamado de O Porvir6 1925-29, jornal editado em Currais Novos, conforme a linguagem da época, escrito de forma manual, na primeira fase, com a participação dos seus companheiros de escola e alguns professores que, em seguida conseguiram fazer a impressão do mesmo e sua distribuição no Seridó, Natal e Recife, contendo artigos, informações e poesias.

  Este foi o segundo passo de gigante pelos diversos caminhos abertos em sua vida, através daquele jornal do interior, feito com trabalho informal, sem caráter profissional, como instrumento de estudo e pesquisa marcando com profundidade – toda a personalidade do homem-escritor, mais tarde revelada pela revista Bando editada por ele em Natal, com a participação de outros intelectuais.

  Com a publicação dessa revista-livro, Manoel Rodrigues vencera outro forte desafio de sua existência, sem receio ou medo de prosseguir na luta pela conquista do seu objetivo com sorrisos e gargalhadas, característicos da sua maneira de ser, a exemplo do que fez aos vinte anos de idade, numa viagem pelo sertão, de Currais Novos a Pendências, montado7 em mula, para fazer o percurso de 200km, em serras, planaltos, vales e matas no decorrer de dois dias.

  A razão maior para essa atitude foi, por incrível que pareça, não somente a saudade de seus familiares e amigos residentes em Pendências, mas, sobretudo a estima, respeito e admiração pelos seus pais e irmãos vivendo naquele povoado isolado das cidades, sem as expectativas de melhorias nos sítios e fazendas que ele conhecia muito bem, de forma objetiva e realista, onde predominavam a ignorância, fome, desemprego, doença e abandono causados pelos governantes alienados da coletividade

   Sede Própria – Depois do seu ingresso na ANL – Academia Norte-Rio-Grandense de Letras – 1951, Manoel Rodrigues de Melo assumiu, também, mais um desafio para sua vida: construir, mesmo sem recursos financeiros, a sede própria daquela instituição acadêmica, sabendo antecipadamente que não poderia contar com o apoio decisivo dos 40 titulados ou imortais vivos registrados pela Academia.

  - Como resolver esse problema ou assumir tal compromisso, sem dispor de recursos?

  Tudo foi resolvido com a disposição, boa vontade e confiança dos amigos, inclusive médicos e políticos que reconheceram8 as boas intenções e seriedade do presidente da ANL, especialmente o então governador Walfredo Gurgel, que colocou à disposição daquela entidade uma considerável parte dos recursos para a execução do projeto.

  Com as bancadas da representação política do Estado, nos planos Federal e Estadual, o presidente da Academia não perdeu oportunidade para a obtenção e liberação de subvenções anuais com a fim de avançar na construção do edifício, tendo realizado o mesmo esforço junto aos governos de Dinarte Mariz e Aluízio Alves, sem fazer qualquer vinculação político-partidária.

  Os acadêmicos da ANL – sabem, por sua vez, que MRdeM em muitas ocasiões, quando o caixa daquela obra estava vazio – ele puxou do seu bolso o dinheiro necessário para o pagamento de algumas contas em atraso, de preferência as de pessoal, depois dos serviços programados e executados em caráter de urgência.

  Por esses e outros motivos singulares, o autor de Várzea do Açu – passou mais de 20 anos na direção da ANL – fazendo a construção da sede própria ou tomando as providências externas com esse fim, movimentando-se9 em seu Cavalo de Pau, feito com talo de carnaubeira, conforme a sua recordação de menino na Felisópolis criada nas Terras de Camundá, mais precisamente em Pendências.

  - Aí está a sede própria da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras construida com o meu próprio esforço!

  Se alguém, em qualquer época – tiver a ousadia de afirmar que Manoel Rodrigues andou se ufanando com essas palavras, sem dúvida teremos a legítima e verdadeira capacidade para rebater, negar e repudiar essa atitude contrária ao seu caráter e personalidade de varziano coerente e simples como o vento, que passa deixando a brisa para refrescar o calor das tardes.

  No entendimento da mídia de resultados imediatos – parece que foi em decorrência da falta de auto-apresentação-elogio, narcisismo e cabotinice que MRdeM deixou de ter-ver o amplo reconhecimento de sua obra pela coletividade potiguar, nordestina e brasileira, a exemplo do que verificou-se com outros autores de conteúdo menor e sem a mesma  experiência do real Badéo – saído da miséria10 e riqueza do Vale.

  Se esta interpretação não tiver fundo da verdade, então podemos agora recuperar o gesto de “eira-sem-beira” ou desconhecimento sobre o espírito e a alma da obra rodriguiana criada desde o início do século 20, para que no atual tenhamos os instrumentos básicos indispensáveis aos projetos das novas gerações.

  Como animal racional – o homem-mulher sempre dispõe da capacidade de se comunicar com toda a natureza e universo, visando fazer a sua evolução no tempo e espaço em que estiver ouvindo, falando, lendo, pensando e sentindo todos os sinais animados pelo infinito cósmico.

  - Quando e como vamos sair da letargia, acomodação e alienação em que estamos situados porque, geralmente, não temos partidas decisivas e voluntárias?

  A partida em direção ao Sertão de MRdeM: vales, planaltos, serras, tabuleiros, pedregulhos, sedimentos, caatingas, lagoas, riachos e rios onde vivem ou vegetam os nossos semelhantes, tem um custo – vontade, igual a que acontece sobre o litoral das praias, ventos e chuvas certos ou errados, em diferentes períodos, onde e quando ele esteve, esquipando de olhos abertos, em cima do seu Cavalo de Pau.

Grito sem EcoQuando a Ecologia estava sem eco – fora da preocupação social, sem o interesse dos estudantes, professores e toda a intelectualidade, bem como da coletividade brasileira e mundial – M. Rodrigues de Melo gritava nas páginas de seus livros pela defesa da Mãe Terra11 em termos globais, fazendo o mesmo em relação ao Vale do Açu e Seridó, além de todo o Rio Grande do Norte.

  O varzeano de Pendências – fazia isso sem o propósito de vaidade e projeção, longe dos holofotes e das fotografias, pois a sua opção era uma questão de convicção e determinação extraída do seu pensamento de coerência com as necessidades sociais e geográficas do Vale do Açu e Seridó, como também do planeta Terra, partindo do princípio de que sem a defesa e preservação do meio ambiente – todos os seres vivos caminham, cegamente para a extinção.

  - Nenhuma guerra, revolução ou epidemia deixou, entre nós, vínculos tão fortes e profundos de sua passagem, como a remotíssima e sempre atual batalha das secas, trazendo no seu cortejo as conseqüências mais trágicas e dolorosas, quais sejam: a nudez, a fome, a peste, a orfandade e a própria morte.

  Esta afirmação de Manoel Rodrigues revela, por si só, a sua interpretação12 ecológica acerca das secas nordestinas com sua dimensão sócio-econômica em que ele, também foi uma das vitimas, à semelhança dos milhões de seres humanos, inclusive dos indígenas – estigmatizados e extintos durante as vinte gerações da história do Brasil que se tornou incompetente para solucionar a maior questão regional.

  A falta de competência para conviver e superar às longas estiagens tem, naturalmente, outro aspecto, talvez maior do que o governamental – a consciência e responsabilidade social, para que desse modo os governantes sejam impulsionados como instrumentos do povo para atender às suas necessidades, ou seja, o governo tenha a capacidade de reconhecer na prática – o que é democracia.

  Aquele Grito sem Eco foi concebido durante os anos de 1930, sem ter sido ampliado ou levado ao conhecimento do público, de maneira concreta e objetiva, o que só veio acontecer em 1939 – quando da primeira edição de Várzea do Açu, seguida pela segunda – 1951, ampliada e anotada pelo autor, quando então, provavelmente a questão do meio ambiente teve mais consideração nas páginas dos seus livros.

  No seu quarto de estudos da rua Afonso Pena – Natal, entre os livros e jornais, MRdeM plantou a semente da ecologia, assim como fizeram os profetas, anunciando os pensamentos adquiridos e formulados – para que a humanidade tenha mais sabedoria e evolução pelos caminhos que vem pisando, em busca do bem-estar e da felicidade distantes.

  O testemunho de maior expressão rodriguiana pela Ecologia foi a defesa da centenária Tamarineira localizada em Pendências, quando o sistema de eletrificação urbana chegou àquela cidade com a determinação para que a mencionada árvore fosse destruída e arrancada, dando lugar à posteação de concreto que se fazia indispensável.

  Por conta de tal exigência, Manoel Rodrigues de Melo encaminhou aos jornais de Natal – o seu protesto e razões para que essa providência não fosse tomada, acrescentando que a Tamarineira constituía um dos maiores símbolos da população pendenciana, pelo fato de ter sido plantada pela mulher de Félix Rodrigues, fundador12 da vila que se tornou cidade e mais tarde município.

  Em conseqüência do protesto – a mesma Tamarineira continua viva13 e exuberante no centro geográfico daquela cidade, produzindo frutos todos os anos, além de sombra e purificação do ar – para os habitantes, sendo ao mesmo tempo, um ponto de referência memorial para a história e cultura da população. 

A velha tamarineira de Pendências

  Honoris CausaA concessão do título de Doutor Honoris Causa a Manoel Rodrigues de Melo em 1995, pela UFRN – Universidade Federal do Rio Grande do Norte, na gestão do Reitor Geraldo dos Santos Queiroz – foi, inegavelmente a maior homenagem de reconhecimento ao trabalho do jornalista, pesquisador, escritor, romancista, etnólogo e historiador.

  - Como e de quem partiu essa idéia?

  Antes da tomada de tal decisão pelo Conselho Universitário, houve uma reunião no auditório da Biblioteca Zila Mamede em que o assunto girava em torno de homenagem ao Badéo do Vale do Açu, mais especificamente de Pendências, em que os participantes reconheceram, sem indiferanças, aquela pretensão.

  Na mesma ocasião, um jornalista varzeano, discípulo de Manoel Rodrigues, aproveitou a oportunidade para dizer aos presentes que seria muito bom e justo – pensar na concessão de um grande título para ilustrar a vida e obra daquele homem, em caráter definitivo e publico.

  - Quem foi que falou isso?

  O importante, nesta história – é Manoel Rodrigues e a UFRN, assim como a cultura registrada e recuperada na Várzea do Açu – para que não venha ser extinta pelo tempo e o esquecimento das populações sem memória dos séculos passados e atuais.

  Naquele momento da UFRN, o então Pró-Reitor Willington Germano teve uma palavra decisiva, corajosa e oportuna em favor de Manoel Rodrigues de Melo, afirmando que poderia ser concedido a ele14 o título de Doutor Honoris Causa – pela sua produção investigativa acerca dos costumes, hábitos, fracassos, vitórias, alegria e tristeza, fome, doença, morte e miséria, assim como a riqueza no Vale do Açu das “cheias e secas” ainda existentes.

  Antes de ser criado o curso superior de Geologia pela UFRN, o mesmo jornalista varzeano, através do jornal Tribuna do Norte publicou matéria considerando a necessidade do ensino dessa disciplina por essa Universidade, a qual teve uma repercussão bastante positiva.

  As informações – fizeram o reforço indireto no sentido de que os trabalhos com essa finalidade, sob a coordenação do professor Mario Moacir Porto, ex-Reitor da UFPB, tivessem prosseguimento no Ministério da Educação para que fosse realizada a oficialização e aprovação do curso, o que se deu posteriormente, atendendo às expectativas geológicas do Rio Grande do Norte.

  No dia em que for contada e registrada a história MONUMENTAL de Manoel Rodrigues de Melo poderão ser feitos todos os esclarecimentos em torno das questões relacionadas com ele, seus discípulos, amigos e familiares – se houver o interesse social-coletivo em torno da história e cultura feitas pelo homem avesso às medalhas.

  Pingo d’ÁguaAqui reside uma contradição que pode ser comparada com a “mula-sem-cabeça”, ou seja, ao fato de que MRdeM depois de muito ter falado e escrito sobre o fenômeno das águas no Vale do Açu, durante toda a sua vida – 88 anos, está na Internet-Google, sob apenas dez referencias15 contendo informações que pouco correspondem ao trabalho intelectual dele.

  Este fato comparado ao que foi produzido, quase nada representa em termo de comunicação para que a obra – venha ser mais conhecida, pesquisada e qualificada de acordo com o seu conteúdo de valor não somente literário, mas histórico, econômico, político, sociológico e psicossocial, além do ecológico – todos muito bem caracterizados nos livros escritos e publicados.

  - Como seria possível explicar este impasse?

  A mídia regional e nacional sempre esteve distante de Manoel Rodrigues, enquanto ele, por sua vez, preferia continuar no seu canto, longe dos holofotes, apesar de ter procurado os intelectuais do seu tempo, através de livros, cartas e entendimentos pessoais, sem fazer deles – o canal de acesso ao publico brasileiro.

  Outro lado interessante, relacionado com o segredo do espírito de MRdeM: na sua descendência sociofamiliar e psicocultural, de forma direta e indireta, é o fato de haver cerca de 10 jornalistas16 profissionais, dos quais a maioria reside em Natal, de médio entendimento em torno de quem deixou um dos maiores exemplos sobre o jornalismo.

  Se tal situação fosse diferente, certamente toda a obra de MRdeM já estaria cobrindo todo o globo terrestre – levando a mensagem de riqueza e miséria do Vale do Açu, para o mundo inteiro, assim como o belo e feio, alegria e tristeza com o sal, o sol, a terra, a água, os vegetais verdes, os numerosos pássaros – periquitos verde-amarelos.

  Os jornalistas quando decidem fazer alguma coisa – logo conseguem os resultados esperados, de maneira positiva, em atendimento às expectativas da maioria interessada pela solução do problema.

  Se formos esperar que amanhã ou depois, as instituições culturais atendam às necessidades de comunicação social – para a obra rodriguiana, talvez venha ser tarde demais para a atualidade e a responsabilidade dos jornalistas aculturados ao MRdeM que iniciou a sua vocação de escritor – fazendo um jornal manual, após muito trabalho em loja comercial, entre as serras do Seridó.

  Nas escolas e universidades, se houvesse mais conhecimento da obra de MRdeM, os estudantes poderiam fazer com que esta fosse motivo de estudo, pesquisa e trabalhos escritos dos próprios alunos, viagens de estudo, debates e seminários em que seriam incluídos, para efeito comparativo, outros autores norte-rio-grandenses.

  Enquanto não houver esse procedimento cultural – os autores dos melhores trabalhos continuarão desconhecidos, esquecidos, abandonados e no ostracismo histórico em que vivemos desde o começo da colonização brasileira – abrindo o nosso maior espaço para os livros estrangeiros.

  No mundo moderno acabou-se o mito da ilha isolada no globo terrestre, pois a Internet, com as suas falhas – tornou-se a linha virtual que envolve todo o espaço cósmico, em pleno século 21 – da Informação ou do Conhecimento. 

  O melhor testemunho de respeito e admiração à imprensa e ao jornalista – feito por MRdeM, consiste no seu Dicionário da Imprensa no Rio Grande do Norte - 1909-1987, com 269 páginas, nas quais17 ele relaciona, após longa pesquisa histórica, os jornais e revistas editados no interior e Capital do Estado, sob dificuldades extremas.

  Com vistas à formação dos jovens de todo o Nordeste, não somente do Sertão, como do Litoral, de características que parecem ser complicadas no vasto plano cultural e sociológico – pelo menos a maioria dessa população, através de suas escolas, poderia adquirir a necessidade de leitura e reconhecimento das 157 páginas do Cavalo de Pau escritas por Manoel Rodrigues.

  - Quem estudou, pesquisou e analisou todas as dimensões do menino-jovem nordestino brasileiro nas mesmas dimensões desse autor?

  É bem provável que a resposta adequada esteja na dependência de um seminário acerca deste assunto, para que assim tenhamos oportunidade de examinar os demais autores preocupados com os meninos e suas condições de vida, desde as zonas interioranas dos serrados, vales, planaltos, agrestes e litorais.

  Os jornalistas de todas as categorias18 – empregados e patrões, parece que ainda não perceberam, nem sentiram a pena ou o lápis de Manoel Rodrigues escrevendo no curso de toda a sua vida, em defesa da sociedade – mulheres e homens que fizeram a história do pequeno Rio Grande do Norte, nas piores épocas.

  Espera-se que algum dia – os ventos e rios da cultura, desde a Várzea do Açu, Terras de Camundá e Cavalo de Pau, além de outros livros – sirvam de incentivos para que as gerações de hoje e amanhã tenham melhores e maiores conhecimentos sobre o homem e a natureza que somos e vivemos.

  Espaço Cultural – Com a disposição da família Queiroz, mais precisamente Tereza Aranha, Gerôncio, Geraldo e Salete – todos naturais do município de Pendências, através da Fundação Félix Rodrigues criada em 1997, os expoentes humanos daquela cidade começam a reconhecer os valores de Manoel Rodrigues de Melo.

  Isto vem sendo feito, desde dezembro de 1998 – quando foi organizado o Espaço Cultural19 com o nome do escritor varzeano, reunindo grande parte do acervo cultural relacionado com MRM em forma de arquivo, não somente a respeito dele, como ainda de outras famílias pendencianas.

  A razão fundamental para essa providência relacionada com a cultura varzeana – foi, nada mais, nada menos, do que os estudos de MRdeM, registrados em seus livros, em torno da questão social existente em toda a história do Vale do Açu, resultante das secas e enchentes, dos recursos naturais e toda a complexidade regional.

  Na perspectiva do passado, presente e futuro o Núcleo Cultural vem sendo, objetivamente, uma das melhores oportunidades para a valorização, reconhecimento, documentação e pesquisa sobre a obra intelectual desse homem e todo o povo varzeano, desde o início dos tempos – para que, desse modo, não se perca a memória dos mortos e vivos criados pelas gerações dos ventos e águas daquele imenso Vale ligado ao oceano.

  Este exemplo deveria ser conhecido, admirado e respeitado pelas instituições culturais do Rio Grande do Norte, de maneira objetiva, concreta ou real – pois daí seria mais fácil e viável compreender a linha do pensamento rodriguiano, segundo a abordagem do mistério cultural na alma de Camundá e do Cavalo de Páu confeccionado pelos meninos com os talos da Carnaubeira.

  Esses meninos – acreditam que os prefeitos do Vale do Açu, de preferência os de Pendências, Alto do Rodrigues, Carnaubais e Macau levantem suas cabeças e abram os olhos para cumprimentar Manoel Rodrigues de Melo, na passagem dos 100 anos do seu nascimento, dos quais teve 88, até 1995 – estudando e pesquisando o homem e toda aquela natureza.

    Os meninos do Cavalo de Pau sabem que através dos cavalos de ferro da Petrobrás, mediante o interesse dos prefeitos de Macau, Açu, Pendências, Alto do Rodrigues,  Carnaubais todo o acervo de MRdeM poderá ser resgatado e incluído nos recursos  digitais da Internet – para que dessa forma o mundo inteiro venha conhecer a Bacia Potiguar com a sua população, todo o petróleo, as várzeas, as enchentes, os carnaubais e o imenso potencial existente naquela área.

  Até mesmo o Sindjorn - Sindicato dos Jornalistas Profissionais poderia iniciar os entendimentos20 com essa finalidade, considerando que Manoel Rodrigues teve uma atuação bastante significativa sobre a imprensa escrita do Estado, desde o princípio do século 20, além de 1987 – quando publicou a primeira história dos jornais ou Dicionário da Imprensa, com 269 páginas, 22 anos antes - da fundação desse órgão de classe em 1979.

- Quem mais no RN estudou e pesquisou os jornalistas e a imprensa?

 

 

Obras em Resuno

 

M. Rodrigiues de Melo21

 

01 - Várzea do Açu

        1940 – São Paulo – 184 pgs.

02 - Patriarcas & Carreiros

       1944 – 64 pgs.

03 - Várzea do Açu

       1951 – Rio de Janeiro – 284 pgs.

       2ª. Edição – Revista e Anotada

04 - Pesquisas Sociológicas

       Natal – 1952

05 - Cavalo de Pau

       1953 - Rio de Janeiro – 157 pgs.

06 - Terras de Camundá

       1953 – Rio de Janeiro – 157 pgs.

07 - Augusto Franklin – Sacerdote, Jornalista e Orador

       1954 – Natal – 64 pgs.

08 - Chico Caboclo e Outros Poemas

       1957 - Rio de Janeiro – 114 pgs.

09 - Dicionário da Imprensa no Rio Grande do Norte

       1987 – São Paulo, Natal – 269 pgs.

10 - Cavalo de Pau

        2002 – Natal – 157 pgs. 2ª. Edição.22

............................................................................

 

Notas:

01 - Depoimento oral do prof. Luis Eduardo Suassuna, adiantando que tem admiração e

        respeito às obras do mencionado autor.

02 - M. Rodrigues de Melo, 1972 – p.25 narra como foi perdida a Fazenda Queimado,

       em forma de romance, sem haver resistência da família, pelo menos através da                  

       Justiça que, naquela época não oferecia amparo legal com essa finalidade.

03 - No romance Terras de Camundá, Pendências foi carcterizada de Felisopólis, desde

        o início até o fim do livro.

04 - Ver M. Rodrigues de Melo, 1972 – p.7 explicando quem é Camundá.

05 - Idem, ídem.

06 - O primeiro jornal feito com a participação de M. Rodrigues de Melo e outros

        estudantes do curso noturno, foi editado em Currais Novos – RN, denominada

        Galvanópolis, sob o título de O Porvir ou O Futuro, estes no romance Terras de

        Camundá, p.172.

 07- A descrição completa da viagem de M. Rodrigues de Melo – 1972 está inserida no   

        seu livro Terras de Camundá com bastante riqueza de imaginação em que o autor                     

        mergulha fundo na sua realidade e sonhos relacionados com o Vale do Açu, mais o 

        Sertão de forma artística e cultural, considerando além disso as injustiças sociais

        das épocas

 08 - A posse de Manoel Rodrigues de Melo - MRdeM na Academia Norte-Rio-

        Grandense de Letras foi realizada, depois de sua eleição, a 13 de Abril de 1950,   

        quando assumiu o compromisso de trabalhar para que fosse construída a sede

        própria da instituição, o que foi possível durante 20 anos com a inauguração a 23

        de Janeiro de 1976.

 09- Com o seu paletó e gravata usados, diariamente, M. Rodrigues de Melo andava

        diariamente pelas ruas de Natal, especialmente do Tirol para a Cidade Alta, além

        de Petrópolis e Ribeira – sempre  caminhando, subindo e descendo ladeiras, 

        falando e sorrindo com os seus conhecidos e amigos – imaginando-se montado em  

        seu Cavalo de Páu, a exemplo do que fez na juventude em Pendências.                   

 10 - O maior problema da família Rodrigues de Melo foi causado com a perda da

        Fazenda Queimado, de 530 hectares, 35km ao Sul de Pendências, na localidade

        Ilha do Queimado, em forma poligonal – de cinco pontas circuladas por três rios -   

        o Açu e dois braços deste, com terminais no litoral de Macau, segundo a estimativa

        atual extraída do mapa de Pendências – 1999, na escala de 1:100.000, editado pelo

        Idema. Ver mapa.

 11 - Ver M. Rodrigues de Melo – 1951 – pp. 107, 108.

 12 - Idem, idem – p.78 – seguida de foto.

 13 - Idem, idem.

 14 - A proposta do prof. Willington Germano foi manifestada durante a reunião com a 

         presença do então Reitor Geraldo Queiroz.

 15 - As informações sobre a obra de Manoel Rodrigues de Melo foram extraídas do

         Google, nos últimos dias de Outubro – 2007.

 16 - Como sobrinho de 1º. Grau M. Rodrigues de Melo tem um jornalista, seguido de

         mais quatro – filhos de outros sobrinhos, enquanto na descendência psicocultural,

         de forma direta e indireta há outros profissionais dessa categoria.

  17 - M. Rodrigues de Melo, 1987. Livro pioneiro sobre a imprensa no Rio Grande do

          Norte.

  18 - Idem, idem. Fonte de conhecimentos para jornalistas e empresários da mídia.

  19 - Espaço Cultural Manoel Rodrigues de Melo – unidade de preservação da obra 

          cultural do homenageado, criado pela Fundação Félix Rodrigues, sediada em

          Pendências.

   20 - Desde os 18-20 anos de idade, Manoel Rodrigues tornou-se jornalista, sem  

           trabalho profissional, começando pelo interior - Currais Novos e depois em    

           Natal, sempre escrevendo para jornais e revistas.

   21 – M. Rodrigues de Melo – nome estabelecido pelo Autor em seus livros.

 

   22 - O pensamento de MRdeM sobre os meninos do Vale do Açu, Seridó e todo RN,

          assim como do Nordeste está nas páginas do Cavalo de Páu, assim como as suas

          preocupações em torno da escassez de estudos sociológicos sobre este assunto,

          sem a necessária fundamentação, especialmente quanto a origem dos hábitos e

          costumes dos meninos no plano mundial.

    * - O autor é jornalista, sociólogo, pesquisador – membro do IHG-RN

 

 

 
 

A Ilha do Queimado está circulada na parte superior do mapa, onde fora encravada a Fazenda Queimado – 35km  ao Sul da cidade de Pendências.

 

 

 

(*) Arlindo Freire é Jornalista, sociólogo – UFRN, Ex-Presidende-fundador do SINDJORN, pesquisador, sócio do IHG-RN e membro da Naya-Argentina.

. Esta coluna será atualizada periodicamente

 

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