Diversidade Cultural
Arlindo Freire (*)

 amelofreire@hotmail.com 

30.03.2007 

ROSA CULTURAL VIVE NO ACARI 

 

Arlindo Freire

 

   Se houvesse compromisso e responsabilidade sobre a cultura e a história das raízes em que nasceram as inúmeras famílias do Rio Grande do Norte, o ano 2007 poderia ser motivo de fabulosas comemorações para a maior grandeza da população, em todos os sentidos, de forma legítima, verdadeira e festiva. 

   Isto ainda poderá acontecer, desde que os homens e mulheres de consciência representativa – intelectuais, universitários, estudantes e líderes classistas, assim como de outros setores, tenham a disposição e vontade de pensar e agir neste assunto, de maneira impessoal, olhando apenas para o coletivo social.

   - Quais os motivos para estas afirmações?

   Para o bom entendimento, temos de fazer uma viagem com 201 km, desde Natal ao Acarí, com escala em Santana do Matos, os olhos e a mente nos vales, serras, riachos e rios, onde viveram os indígenas de 16471 – sob as garras dos colonizadores sedentos de terras e das riquezas naturais.

   O conhecimento das razões dessa viagem, requer a presença e participação imaginária ou real de quem revela o interesse sobre o estudo e pesquisa acerca dos índios2 – o holandês Benjamim Nicolau Teensma, Olavo de Medeiros Filho, Luis da Câmara Cascudo, Pierre Moreau, Nássero Nasser, José de Azevedo Dantas, Walner Barros Spencer, Rosáfico Saldanha Dantas, Rodolfo Baro, Emanuel Amaral, Crispiniano Neto, Enélio Lima Petrovich, Jerônimo Rafael de Medeiros, Edgard Ramalho Dantas, Vandeberg Medeiros e outros.

   

Serra Monumento

  Naquele mundo cheio de pedras, serras semi-áridas, garranchos, vales e rios secos ou sazonais, habitado por gente de grande resistência, alegre, feliz, amiga e hospitaleira – tivemos um acontecimento que se projetou em toda a Europa: a festa ou ritual3 da passagem, realizada pelos índios Tarairiú, em junho de 1647, ali reunidos pelos seus caciques chefiados pelo maioral Janduí.

  No “seu altar para os céus”4 – a serra Macaguá, atual Serra de Santana, os indígenas reuniram-se numa “aresta estreita e comprida, que mede, aproximadamente, 10 quilômetros por 1.500 metros”5 – onde estavam preparando as suas festas, no final de junho, sob todo o rito selvagem, através da bebida, comida e também da antropofagia com respeito e admiração pelos seus valores humanos vivos e mortos.

 

Aquele local não pode ser outro, a não ser onde, atualmente, localiza-se o açude Marechal Dutra – ex-Gargalheiras, município do Acarí, desmembrado de Caicó, da antiga região do Seridó6 – por onde viviam os índios chamados Tapuia ou nômades chefiados por Janduí e outros caciques valentes, poderosos, corredores e destemidos.

  As estimativas são de que 3 a 5 mil índios – mulheres, homens e crianças tapuias foram participar daquela festa7 ou Toré, em nome do deus Taúba, com atos e cerimônias de partos, mudança de idade, união conjugal, danças, cantos, corridas do tronco, bebidas e alimentos durante várias noites, queima de fogueiras, morte e nascimento de crianças, cura de doentes, além do canibalismo próprio dos índios Tarairiú.

  Naquela oportunidade, certamente o rio Acauã – já estava com muita água pluviométrica, a qual fazia um espelho sob a claridade da lua, enquanto o clima era frio, levado pelo vento norte que assanhava os cabelos longos8 dos índios e levantava as folhas que cobriam o corpo das mulheres.

  - A beleza deste cenário já foi pintada por algum artista do Nordeste?

  Parece que nada foi feito neste sentido, pelo menos, no Rio Grande do Norte, menos ainda na região Nordeste ou no Brasil – considerando o valor9 cultural, antropológico, histórico e, também sociológico para todo o país, como fator de reconhecimento em torno de nossas origens.

  Os indígenas do Rio Grande, com sua beleza natural e seus feitos culturais – continuam esquecidos e abandonados, desde o período colonial, pelos artistas da terra, a exemplo10 do que tem ocorrido com as demais categorias sociais, em decorrência da ação separatista de uso e abuso comuns.

  O monumento da Serra Macaguá foi publicado em Paris - 1651, pelo filósofo e historiador francês Pierre Moreau, depois de haver consultado o original das Relações de Viagem, escrito com falhas e erros, em 1647 pelo representante dos holandeses junto aos índios, Rodolfo Baro. 11

  Moreau ganhou fama e prestígio em toda Europa iluminista com a divulgação do seu trabalho referente às festas dos índios Tarairiú na Serra Macaguá, vez que naquela época a cultura européia estava voltada para os acontecimentos das viagens pelo Novo Mundo, especialmente no tocante aos povos indígenas que causavam admiração12 aos civilizados.

  Naquele mesmo ano – 1647, o holandês Gaspar Barléo, ao publicar o livro da história do governo flamengo no Brasil, com Maurício de Nassau, deixa de mencionar os relatos da viagem de Baro aos Tarairiú, exceto as palavras “um certo Baro” que prestava serviços ao governo da Holanda no Brasil.

Menino Abandonado

  Durante o século 17, os países europeus estavam em guerras constantes de 80 a 100 anos consecutivos, quando a fome,doença, desemprego, abandono e miséria rondavam as casas, famílias e pessoas vivendo na escuridão do Iluminismo em formação.

  Foi naquela condição que nasceu em 1610, um dos meninos, mais tarde chamado de Baro, o qual deve ter perdido mãe e pai, a exemplo do que houve com outros milhares de órfãos – filhos da guerra, sem casa, comida e família.

  Na situação de Menino Abandonado, 13 a exemplo do que ainda acontece em muitos paises, inclusive Brasil e outros, aquele vivia no porto da província de Zelândia – sul dos Paises Baixos, quando foi chamado para embarcar no navio Blauwe Zee – Mar Azul com destino ao Brasil, no início de 1617.

  O professor e pesquisador holandês B.N. Teensma, da Rijksuniversiteit, Leiden, Paises Baixos , é quem nos faz este relato sobre Baro, acrescentando que ele chegou ao Brasil em 1617, na companhia  do capitão Dierick Ruiters, quando o navio foi destroçado na praia da Ilha Grande e mortos os seus tripulantes, exceto o capitão, juntamente com seu “grumete” – marinheiro de primeira viagem.

  Ao ser preso pela força portuguesa, o comandante do Mar Azul foi enviado para a prisão na sede do governo lusitano no Brasil, Salvador-Bahia, juntamente com o menino14 que, mais tarde, por meios desconhecidos, passou a morar com os índios no interior do Rio Grande, ao lado dos Tarairiú de Janduí.

  Naquele meio selvagem, o menino de Zelândia aprendeu a respeitar os costumes e liberdade dos indígenas, ao lado dos curumins, comendo as frutas e caças, banhando-se nos riachos, rios e brincando nas matas habitadas pelos índios nômades que lhes faziam companhia.

  Entre os Tarairiú – o Menino Abandonado sempre teve o seu pai adotivo ou de criação, o chefe Janduí tratando a esse estrangeiro de Meu Filho, enquanto este chamava o cacique de Meu Pai, no decorrer dos l3 anos14 vividos na tribo janduina, até 1630, quando saiu de Macaguá15 com destino ao Rio Grande – Natal e Recife, afim de se apresentar ao governo holandês.

  Na cidade de Olinda – sede do governo flamengo no Brasil, o ex-marinheiro do capitão Ruiters, certamente teve, pela segunda vez, o apoio deste para chegar ao Conde Maurício de Nassau, pois como fugitivo da cadeia de Salvador, o capitão do Mar Azul regressou a Holanda, daí retornando na companhia de Nassau16 para a tomada do território brasileiro.

  Nos entendimentos feitos entre Nassau, Ruiters e o Menino Abandonado, certamente entrou a pessoa de Jacob Rabe, aventureiro e mercenário, auxiliar das autoridades holandesas, então indicado para a companhia do jovem holandês, ambos como representantes do novo governo, junto aos índios Tarairiú.

  O nome próprio17 em Tupi, no dialeto Tarairiú, do Menino Abandonado, ficou sem registro pela história, concluindo-se, logicamente, que foi Rabe quem criou o nome de Rodolfo Baro para o mesmo, considerando o fato de ele ser de estatura alta e fisionomia respeitável, bem como baro significar no alemão antigo, o tipo do homem alto, poderoso e de projeção, daí surgindo o barão – senhor rico de muitas terras, simplesmente Baro.

 

Avanço e Retrocesso  

  Após os 15 anos do governo Nassau, surge a revolta dos proprietários de engenhos da cana de açúcar em Pernambuco e outras capitanias, inclusive a do Rio Grande, sob a liderança do ex-auixiliar da administração holandesa no Recife, o açoriano João Fernandes Vieira, 18 com a finalidade de recusar o aumento de impostos adotado pelos governantes.

  Nos preparativos da guerra, Vieira lançou um bando ou panfleto para comprar a cabeça de Nassau por elevado valor, enquanto este respondeu em condições superiores, sem mostrar suas armas e tampouco as tropas que dispunham para que o conflito fosse iniciado.

  O rompimento de Vieira com os holandeses teve prosseguimento com o reforço de tropas e armas, inclusive a média de 8019 por cento sobre o total, constituída pelos índios de Potí – Felipe Camarão, além dos negros de Henrique Dias, para a defesa dos colonizadores oriundos de Portugal e outros paises europeus do reino luso-espanhol.

  Naquela altura da Guerra dos 100 Anos, a Holanda20 estava à sombra da força espanhola, sem mais o anterior domínio do mar-terra, motivo pelo qual seu maior objetivo era a obtenção de capital para fortalecer o império de Orange sediado em Amsterdã.

  Na Serra Macaguá, do Rio Grande, Rabe e Baro estimulavam os índios janduinos para que fossem guerrear os portugueses, através de assaltos aos rebanhos de gado e às plantações, fazendo a morte dos colonos, até a expulsão dos ocupantes das terras ocupadas.

  Janduí e seus caciques aliados estavam de acordo com os planos de Rabe, desde que o reino de Orange lhes fornecesse as armas de fogo, cavalos e demais utensílios bélicos, além da ração necessária, para atender aos seus guerreiros.

  Baro, por sua vez, recusava-se em fazer assaltos aos roçados ou plantações, a exemplo do que aconteceu em Macaguá, quando um grupo de índios arrancou o milho de outros, sob alegação mentirosa de que tinham feito isso sob a recomendação dele.

  Foi sem a presença de Baro que Rabe em 1645,21 trouxe uma tropa de índios do sertão, sob o comando do cacique Paraupaba, para atacar com fogo e morte, o engenho Cunhaú, mais os seus colonos, segundo os relatos históricos, pelos quais foi queimado um dos vários estopins que deram seqüência à guerra dita infinita.

  Agora mesmo, não pretendemos desviar para outro assunto, pois no momento o importante e fundamental é a grande festa indígena dos Tarairiú, onde, hoje em dia, está a bacia do açude Gargalheiras, com altitude aproximada de 270 metros, recebendo as águas do rio Piranhas.

  A viagem de Baro, desde Natal até a Serra Macaguá, mais precisamente à lagoa Acauã, onde os índios preparavam suas festas anuais, durou cerca de 80 dias de caminhadas e descanso, em companhia de dois auxiliares, levando os presentes para Janduí – tecidos e ferramentas. 22

  Com essa providência ou gesto de amizade, os representantes holandeses queriam fazer com que os indígenas revoltosos não insistissem com os propósitos de fazer a guerra contra os portugueses, considerando, também as recomendações feitas pelo governo central da Holanda.

  Janduí, por sua vez, continuava reclamando23 dos holandeses a falta de atenção destes, demonstrada em diversas ocasiões, entre as quais, depois da morte de Rabe, no ano anterior – 1646, por decisão do coronel Garstman, efetuada em Natal, como decorrência da chacina de Cunhaú.

  - O que Janduí tinha com isso?

  Recorde-se que Rabe viveu, também, vários anos, com os índios janduinos nas terras do sertão, 24 como representante dos holandeses, procurando estabelecer as boas relações destes com os nativos, até o ponto de haver casado com uma das índias daquela aldeia.

  Havia, portanto, estreitos laços de amizade entre Janduí e Rabe, reforçados pela sua mulher do povo janduino que, certamente podia fazer com que o seu cacique aplicasse no meio daquela comunidade, o devido castigo a Garstman por ter sido o mandante do assassinato de Rabe.

  A negação dos holandeses sobre esse pedido – foi mais um motivo para a revolta janduina que se vinha acumulando, de modo lento e progressivo, sem haver a decisão final para a expulsão dos portugueses e seus colonos.

  Apesar de tudo isso, Baro ouviu e guardou silêncio sobre as reclamações de Janduí, sem esquecer que deveria enviar dois mensageiros a Natal – levando ao conhecimento dos governantes flamengos, uma série de ações indígenas visando à guerra.

  Após haver tomado essa medida – Baro continuou às margens daquela lagoa, em companhia de Janduí, seus familiares, outros caciques e pajés, com mulheres e crianças vindos de todo sertão – para a grande festa que se tornou conhecida no mundo, depois de ser publicada pelo historiador francês.

 

Fogo de Monturo

  O trabalho ou relatório de Baro, contendo tudo o que ele viu e fez naquela viagem determinada pelas autoridades holandesas de Pernambuco, foi escrito ao seu modo, com falhas nas palavras legítimas, logo que voltou daquela missão, quando a 14 de julho de 1647 chegou ao forte ou quartel em Natal, apresentando-se ao comandante interino, Cornélio Bayaert.

  Nos papéis fornecidos aos governantes, constava a descrição de todos os passos da viagem, desde Natal à Serra Macaguá, inclusive onde ele dormiu na companhia de seu auxiliar, o polonês João Strass, mais dois carregadores índios que compunham o grupo formado anteriormente para a missão.

  No lado oriental da Serra Macaguá, os emissários do governo holandês no Rio Grande, encontraram a 19 de maio – 1647, uma aldeia Tupi semi-abandonada, na qual conseguiram obter as informações que desejavam, quanto ao restante do caminho que deveriam percorrer.

  Na desembocadura do rio Picuí, dia 22 de maio, foi descida a mencionada serra, em direção ao sul, quando houve o encontro24 dos viajantes com quatro índios Tarairiú, montados em seus cavalos, os quais levaram Baro e comitiva até a lagoa Macaguá, onde estava o rei Janduí, com suas mulheres e crianças.

  Naquele local, isto é, onde atualmente, está situada a Barragem Marechal Dutra, segundo as indicações do seu diário, Baro esteve mais de trinta dias, de 22-5 a 7 de julho, vendo, ouvindo e falando da movimentação dos índios e assistindo, com seus companheiros, ao que era programado para a grande concentração indígena.

  Na comunicação com os Tarairiú, certamente Baro tinha um bom conhecimento das palavras na língua Tupi, levando em conta a sua experiência de na convivência com eles, sem o fato de saber um pouco do Português, bem como do Holandês – línguas que usava nas relações extra-índios.

  O monumento cultural dos Tarairiú – foi construído ou realizado, dia 25 de junho, 1647 - na lagoa da Serra Macaguá, atual Barragem Marechal Dutra, quando e onde Baro, inicialmente assistiu ao Rito de Passagem das Crianças em que os garotos de pouca idade eram levados à presença do pajé, para que este lhes fizesse a perfuração das orelhas e lábios inferiores, em que eram introduzidas as pontas de madeira, pedra ou osso.

  Em seguida, conforme a tradição Tarairiú, cada criança recebia o seu nome da língua nativa, além da bênção do seu deus Tauba, representado, naquele momento, pelo pajé da cerimônia que se repetiam todos os anos, tendo Janduí, geralmente como chefe supremo na presença do seu povo ali reunido.

  No contorno da lagoa, sob as árvores e outros locais, as mulheres grávidas tinham o parto, sem qualquer inibição, antes do Rito de Passagem para que então os seus filhos fossem abençoados por Tauba e recebessem os nomes pessoais diante da coletividade.

  As crianças natimortas das índias presentes naquela festa, serviram de alimento para os seus pais e outros familiares, conforme o canibalismo adotado pelos Tarairiú, em que isso era um gesto de amor e respeito à criatura do filho que não merecia, portanto, ser enterrado.

  Naquele momento, mães lambiam e comiam as placentas de seus filhos, sem qualquer repugnância, a exemplo dos animais irracionais, sob a grande admiração de Baro e Strass, sem comentários em cima dessa atitude.

  O fogo de monturo a que aludimos, não foi a grande festa em questão, mas o diário de Baro que mesmo depois de extraviado em circunstâncias inexplicadas, no Recife ou Amsterdam, está passível de ter ficado com Pierre Moreau, na França, após as suas consultas como fonte das informações que foram publicadas no seu livro.

  Sobre este assunto, o registro histórico assinala ainda, que depois de ter feito o encaminhamento administrativo do seu documento, Baro saiu de Natal, à noite da mesma data de chegada, com destino à sua casa na fazenda Jacaré-Mirim, próxima do rio Potengí, atual município de São Gonçalo do Amarante.

  Com o desaparecimento do Diário de Baro, este perdeu o valor cultural e histórico, no Rio Grande do Norte, Nordeste e até mesmo Brasil, ao contrário do que vem sendo feito nos centros de estudo e pesquisa livres de preconceitos e alienação.

  Na continuação das festas – 25.06.1647 – houve o casamento coletivo, naquele local, depois que os casais passaram um longo tempo, até 3 horas da tarde, vestindo os seus enfeites de longas penas multicoloridas, extraídas das grandes aves que ainda viviam nas matas próximas dos rios.

  Nas suas notas, Baro adianta que essa cerimônia foi acrescida do sacrifício feito pelos pajés, com o sangue caído dos ferimentos em suas faces – para que os casais fossem abençoados com as nuvens de fumaça que tomavam conta de todo ambiente.

  O jantar nupcial foi servido ao ar-livre, às margens da lagoa, durante as danças indígenas e seus cantos numerosos, constituído de milho cozido, talvez o manguzá primitivo, na água de cor amarelada pelo barro.

  Em dias anteriores, os jovens indígenas, com idade para a união conjugal, fizeram diante de seus grupos, nas aldeias da Serra Macaguá, as corridas desportivas, diante das moças, levando em seus ombros fortes troncos de madeira, visando conquistar a mulher pretendida.

  O auge daquela festa noturna, conforme a narração de Baro, foi a comida de uma criança morta, depois de curada pelo pajé, sob a invocação de Tauba que por esse motivo foi expulso do local, sem haver saído dali, enquanto era feito o corte da cabeça dela e cozido o seu corpo em pedaços.

  Os familiares, inclusive pai e mãe, seguindo os costumes nativos, comeram toda a carne do recém-nascido, assim como os flácidos ossos ainda em formação, inclusive os dedos das mãos e pés – como gesto de respeito e amor ao filho e parente que perdeu a vida naquela noite de alegrias.

 

Segredo da Morte

  No final da viagem de regresso a Natal, Baro esteve durante a tarde inteira na sede do governo, prestando as informações orais e escritas em torno de suas atividades, sem que tivesse tratado das mesmas no seu relatório, daí podendo-se admitir que houve segredos de estado.

  Esta conclusão tem por base o fato de que em agosto de 1648, esse homem de confiança do governo holandês, como representante da WIC – Cia. das Índias Ocidentais, junto aos índios do Rio Grande, apresentou o seu pedido de demissão, 29 sem fazer qualquer explicação.

   Poucos dias mais tarde, o segredo termina: a morte de Baro, em “qualquer sítio sobre o rio Potengí” – sem esclarecimento de causa e efeito, tampouco a data e circunstancias em que fora praticado o possível assassinato.

   - A quem interessava o fim de Baro?  

   Por causa dos acontecimentos de 1645 – chacina de Cunhaú, o coronel Joris Garstman, comandante do forte Ceulen, atual Reis Magos, foi quem mandou um dos seus subordinados, matarem Jacob Rabe, após reunião e jantar na residência dessa autoridade.

   Na condição de subordinado ao coronel Garstman, Baro soube atender às determinações recebidas dele, ou seja, fazer em diversas oportunidades, o trabalho de aproximação e entendimento dos índios com o governo Nassau, como ninguém sabia, porque desde menino viveu no meio indígena.

   Tanto Rabe quanto Baro sempre estiveram mais ao lado dos índios, do que dos holandeses, sobretudo na fase posterior ao afastamento de Nassau do governo flamengo no Brasil, quando tudo caminhava para a guerra.

  Portanto, a queima de arquivo30 no crime político não é apenas de hoje – vem sendo praticada desde a colonização, sendo que naquele período, era mais ou menos como na atualidade, salvo engano.

  Se os 15 mil holandeses que, anualmente passam por Natal31 – fazendo turismo, tivessem sua atenção para esses acontecimentos, especialmente os relacionados com Baro, certamente poderiam ser criados os meios para a recuperação da memória bariana e janduina, de modo solidário – Natal-Amsterdã. 

  No lixo da colonização – Baro e Janduí plantaram a semente que produz uma rosa em cada ano, mesmo que seja considerado o sangue que resultou dos seus problemas causados pelas circunstâncias em que viveram.

  A rosa em questão é nada mais – nada menos, do que os acontecimentos históricos, culturais, antropológicos e sociológicos ocorridos às margens da extinta lagoa Macaguá ou Acauã, com mais de quatro séculos, no mesmo local da Barragem Marechal Dutra – Acarí-RN.

  O complemento com maior fundamento pela comprovação daquele acontecimento, infelizmente é um problema que ainda está na dependência da arqueologia, mediante, certamente, a futura realização de pesquisas que poderão trazer novas revelações em torno do assunto.

  O trabalho de busca, investigação sobre os índios que viveram no Acarí deveria ser efetuado pelos habitantes daquele município, 32 de preferência os estudantes, mediante o apoio disciplinar e organizado dos diretores e professores das escolas, para que desse modo, outras instituições abrissem os olhos para ver a imaginária rosa acariense.

  Quando houver trabalhos assim, então será possível o entendimento de que o atual canibalismo, feito de outras maneiras – crime, doença, fome, desemprego, abandono, miséria e ignorância – ainda é uma das conseqüências do passado ou, simplesmente a raiz da árvore sem a copa que não produz frutos.

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N o t a s:

01. Isto é apenas uma proposta do autor – visando fazer com que a questão indígena no RN-NE seja preservada e mantida pelas novas gerações para efeito de ampliação sócio-cultural.

02.  A viagem sugerida poderia ser organizada, com a devida permissão, pelo Governo do Estado e UFRN, com as pessoas indicadas que por si só, vivos e mortos, têm manifestado grande interesse pelo estudo e pesquisa sobre os indígenas. Os mortos relacionados para a viagem – Olavo Medeiros Filho, Luis da Câmara Cascudo e Pierre Moreau – seriam representados pelos seus livros. Os vivos – B.N Teensma, autor do estudo sobre Rodolfo Baro; Nássero Nasser, antropólogo, pesquisador, aposentado da UFRN; Walner Barros Spencer, historiador-UFRN; Rosáfico Saldanha Dantas, geógrafo, pesquisador – UFRN; Emanuel Amaral, artista plástico e pesquisador; Crispiniano Neto, jornalista, presidente da Fundação José Augusto; Enélio Lima Petrovich, presidente do IHG-RN; Jerônimo Rafael de Medeiros, diretor do Museu Câmara Cascudo da UFRN; Edgard Ramalho Dantas, geólogo, professor da UFRN e Vandeberg Medeiros, artista plástico – UFRN porque têm revelado dedicação e estudo sobre os indígenas.

03. Teensma, B.N – 2000, In Índios do Nordeste: Temas e Problemas 2, Organizadores Luiz Sávio de Almeida, Marcos Galindo e Juliana Lopes Elias – EDUFAL, 2000 pp. 90 a 99.

O4. Teensma, B.N – 2000, Idem – p. 94.

05. Idem, p.94.

06. A bacia do açude Marechal Dutra – situado no Acarí – deveria ser a lagoa Acauã ou Macaguá, considerando que no confronto das informações de Teensma ,B.N – p. 94 com as do mapa do Rio Grande do Norte – 1997, o rio Acauã – braço do Piranhas-Seridó, deságua naquele mesmo local do Acarí-RN.

07. Melo – Antonio Gonsalves de, 1987 – p.215 indica que Janduí em 1639 arregimentou dois mil índios do sertão para o então Rio Grande, atual Natal – para manifestar o apoio ao governo Nassau no combate aos portugueses, motivo pelo qual este recomendou o retorno dos revoltosos às suas origens.

     Idem, Martins – Fátima, 2003 – p.80 trata da mesma questão, adiantando que o governo holandês em Pernambuco, sempre recusou a presença dos Tapuia nas proximidades dos centros populacionais.

     Idem, Barléu – Oscar, 2005 – p.214 afirma que em 1640 Janduí reuniu três mil índios – adultos, mulheres e crianças para demonstrar seu apoio à guerra contra espanhóis e portugueses, daí resultando o alistamento de 2 mil índios nas tropas militares sob o comando de Nassau.

     Com base nesses números – é que fazemos a estimativa de 3 a 5 mil índios na festa Rito da Passagem, na lagoa Macaguá.

08.1647 foi de boas chuvas para todo o Rio Grande, do litoral ao sertão, conforme o relato de Baro considerando que no decorrer de sua viagem, entre Rio Grande e Serra Macaguá, ele atravessou vários rios e riachos com muita dificuldade, para chegar ao destino, após 80 dias de caminhadas, na companhia de três auxiliares.

09. No meio da produção de artes plásticas, pouco ou quase nada temos oportunidade de conhecer, admirar e valoriza, em relação com a população indígena do Rio Grande, apesar do grande potencial existente, assim como das experiências feitas por artistas estrangeiros, durante a colonização, quando eles tiveram em foco os aspectos negativos – canibalismo, revoltas e comportamentos animalescos, segundo eles.

10.  A pintura mais conhecida e admirada – sobre os índios Tarairiú foi realizada pelo holandês Albert Eckhout, no período de 1641-43, depois de sua chegada ao Brasil, na companhia do Conde Maurício de Nassau, quando ele esteve no Rio Grande onde pintou um índio Tarairiú, a provável pessoa de Janduí, além de uma mulher indígena do Assú e uma dança ou luta desses nativos. Raminelli, Ronald – 1996, p.85.

11.As sessenta palavras do pomposo título da obra de Pierre Moreau, publicada em Paris – 1651: “Relation du Voyage de Roulox Baro, Interprète et Ambassadeur Ordinaire de la Compagnie dês Indes, de la  Part des Ilustrissimes Seigneurs des Provinces Unies, au pays des Tapuies dans l aterre firme du Brésil Commencé lê  troisiesme Avril 1647, & finy de quartorzièsme Juillet de la même année. Traduict d´Hollandois em François par pierre Moreau, de Paray em Charolois.”  Teensma - B.N, 2000 – Idem, Nota 3.

12. Barléu, 1647 – edição 2006 publica o relatório de Jacob Rabe, na íntegra, como um dos mais valiosos documentos  do governo holandês no Brasil, sem fazer o mesmo com o relatório Baro, assim como o fato deste ter sido uma ponte ou instrumento de comunicação para que o alemão Rabe tivesse a consideração e apoio dos índios janduinos.

13. A história não especifica Baro como Menino Abandonado. Esta denominação foi criada pelo autor, conforme as indicações históricas de que ele, aos 7 anos de idade, vivia no cais do porto, da província de Zelândia, sem a necessária proteção familiar.

14. Teensma e os demais historiadores que tratam com detalhes documentais das ocorrências relacionadas com Baro – deixam de mencionar o que aconteceu durante a sua juventude na convivência com os indígenas, tampouco o que houve nas relações destes com Baro, naquele período. Nota do autor.

15. Serra de Macaguá – este topônimo indígena fora adotado, certamente pelos nativos, em consideração às aves de rapina existentes naquela área. No tempo da colonização e expulsão dos índios, esta denominação foi extinta ou substituída por Serra de Santana, sem haver na história da região qualquer explicação neste sentido. Teensma – 2000, p.96. Idem.

16. O capitão holandês Dierick Ruiters, desde 1617 – quando foi derrotado no Brasil mudou o seu nome para Francisco de Lucena, alcunha de Mãozinha, pelo fato de ter sido decepada a sua mão esquerda no com combate em que perdeu o seu navio. Na prisão de Salvador – Bahia fez grande amizade com vários judeus, vindos de Portugal, inclusive, como seu grande amigo, Manuel Rodrigues Sanches que teria facilitado à fuga de Ruiters da prisão. Teensma – 2000, pp. 81,82. Idem.

17. Ficou sem registro, o nome próprio do menino holandês, não somente da sua língua de origem, como também em Tupi-Tarairiú por motivos inexplicados. O seu nome de Rouloef Baro, após os 20 anos de idade teria sido em decorrência de dois fatos: plano de servir ao governo holandês e com o salário adquirido – comprar uma fazenda no Rio Grande. Em decorrência desse sonho, Rabe então, criou para o jovem companheiro o nome de Baro ou barão. Nota do autor.

18. Depois de haver rompido com o governo holandês em Pernambuco, o comerciante e senhor de engenho, João Fernandes Vieira – açoriano, retornou ao seu círculo de amizade com os portugueses – aliando-se a outros que estavam preparando o movimento de resistência ao governo de Nassau, desde 1645, sob alegação de que este havia aumentado os impostos sobre a produção de açúcar exportada para a Europa. Sem maiores dificuldades esse movimento obteve o apoio da maioria dos interessados, de forma pessoal e com recursos financeiros para a contratação de índios e escravos que constituíam mais de 80 por cento das tropas para a guerra. Lira, A. Tavares de -1982, pp. 74, 75.

19. Idem, idem. Nota 18.

20. Ribard, André – 1964, pp..51 a 56, Vol.. II.

21. Lira, A. Tavares –  Idem., pp. 77 a 80.

22. Os motivos dos presentes não foram explicados, mas, presume-se que os holandeses pretendiam fazer com que os Tarairiú não provocassem a guerra, nem deixassem de continuar seus aliados. Cascudo, Luis da Câmara -1957, p. 70.

23. Após a morte de Rabe – 1646, Janduí manifestou o seu protesto ao governo flamengo, acrescentando que esperava receber em sua aldeia, a pessoa do coronel Garstman – para vingar ou fazer a sua justiça ao que aconteceu com Rabe. Porque não houve o atendimento a esse pedido, Janduí esteve em vias de romper com os holandeses. Lira, A. Tavares de – Idem, p. 84.

24. O rio Picuí despeja e faz a bacia  da Barragem Marechal Dutra, antiga Gargalheiras, ex-lagoa Macaguá, seguida pelo rio Acauã, no município do Acari. Mapa Político e Rodoviário do Rio Grande do Norte, 1997.

25. Idem, Nota 24, idem.

26. O diário de Rodolfo Baro {1647} como monumento aos índios Tarairiú do Rio Grande do Norte, este é o título do artigo escrito pelo prof. B.N. Teensma – 2000 – pp.81 a 99. Idem, Nota 3.

27. ”Provavelmente jaz enterrado em qualquer sítio sobre o rio Potengí” – afirma B.N. Teensma, 2000, p.96, sobre a morte de Baro, sem adiantar outras considerações acerca deste assunto que faz parte, não somente da história do Brasil, como da Holanda, França e toda Europa.

28. A queima de arquivo ou morte de Baro era do interesse do coronel Garstman, a  exemplo do que verificou-se com Rabe, pois ambos viveram mais em defesa dos indígenas, segundo as suas ações, ao contrário do que foi comprovado na política  confusa dos colonizadores europeus. Nota do autor.

 

29.O pedido de demissão feito por Baro, sem apresentar justificativa aos diretores da WIC em Pernambuco, teria por base a negação de uma solicitação para que ele pudesse iniciar a criação de gado em 1648 na fazenda Jacaré-Mirim, próxima do rio Potengí, atual município de São Gonçalo do Amarante, onde atualmente a figura do seu primeiro dono, é totalmente desconhecida. Mello, José Antonio Gonsalves de – 1987, p..213. Nota do autor.

30.O crime do coronel Joris Garstman, comandante do forte Santos Reis, contra dois auxiliares do governo holandês no Rio Grande, pode ter sido efetuado, sem efeitos judiciais para  este, a exemplo do que verificou-se no caso de Rabe, razão pela qual, mesmo não estando na função militar de comandante da unidade em questão, ele teria combinado com o seu sucessor, em mandar alguém assassinar Baro, enquanto ele – Garstman estivesse no Recife, fazendo esclarecimentos sobre Rabe, após ter sido chamado – 1647,  com essa finalidade, depois do que viajou à Holanda. Cascudo, Luis da Câmara – 1955, p. 70. Nota do autor.

31.Em cima dessa estimativa do meio turístico - pode-se Ademir a necessidade para que os norte-rio-grandenses e s reconheçam os valores dos povos indígenas extintos do RN e todo o Nordeste, mediante, pelo menos, o trabalho de estudo e pesquisa, visando ampliar os conhecimentos sobre a cultura dos Tarairiú, assim como do que foi realizado por Baro, durante os 38 vividos no Nordeste, mais precisamente no RN. Nota do autor.

32.Isto é o apelo que fazemos aos habitantes do Acarí, especialmente aos seus professores e estudantes, inclusive aos que vivem e trabalham em Natal, outras capitais, pois somente com a participação social – será possível criar e fazer a mudança dos hábitos e costumes em que vivemos. Nota do autor.

 

 

 

(*) Arlindo Freire é Jornalista, sociólogo – UFRN, Ex-Presidende-fundador do SINDJORN, pesquisador, sócio do IHG-RN e membro da Naya-Argentina.

. Esta coluna será atualizada periodicamente

 

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