Diversidade Cultural
Arlindo Freire (*)

 amelofreire@hotmail.com 

24.10.2006 

HISTÓRIA SEM RUMO 

 

 

Arlindo Freire

 

Os resultados dos estudos históricos sobre os povos indígenas brasileiros, sobretudo do Nordeste – continuam sendo os mais confusos, complicados e dispersos, sem o mínimo de organização e tampouco de lógica que deveriam ser corrigidas, pelo menos, nas instituições de pesquisa e ensino.

Esta realidade está configurada em fatos e atos que comprovam uma espécie de tratamento burguês e preconceituoso1 de graves conseqüências para a cultura e a história feitas pela ideologia racista e, portanto incapaz de reconhecer a dimensão da grandeza humana e social.

- Qual o fundamento desta afirmação, considerando a existência de pesquisas editadas sobre os indígenas do Brasil?

Os professores e estudantes das escolas são quase unânimes no desconhecimento sobre a importância dos povos indígenas, especialmente ao se tratar dos acontecimentos passados relacionados2 aos índios: condições de vida, costumes e hábitos, línguas, meios de produção, idéias e pensamentos, além de outros fatores da vida primitiva.

Quando em 1759 o Marquês de Pombal expulsou os Jesuítas do Brasil, eis que naquele momento histórico, a cultura indígena foi castrada radicalmente, juntamente com as diferentes e numerosas línguas adotadas por cada povo, mesmo levando em conta que antes dessa providência, a língua Tupi3 era a mais usada de norte a sul do país.

Foi, também, a partir daquele ano que a extinção dos ameríndios brasileiros teve o maior incentivo e assumiu proporções gigantescas, mediante o apoio governamental, segundo a vontade militar racista reforçada pelas elites4 do colonialismo constituído de grandes fazendeiros do café, cana de açúcar e dos mineradores.

Um dos inúmeros exemplos desta natureza, ainda reside no Rio Grande do Norte: entre 1597-1825 – no espaço de 228 anos, foi realizado o genocídio5 dos índios, como represália à resistência deles aos colonizadores, daí resultando o fato da erradicação dos povos em questão.

Em contrapartida, alguns setores do estudo nesta área, admitem que no território potiguar ainda existam índios legítimos, segundo o que vem sendo afirmado pelo IBGE, assim como os contatos6 de especialistas, feitos na zona rural, depois das indicações de que as doenças, perseguições, mortes e expulsões foram as determinantes para o desaparecimento dos Potiguara e demais povos.

Alguém, certamente, “está querendo tapar o sol com a peneira”, o que na realidade não será confirmado, pois na verdade já foi comprovado que o RN e Piauí – são os únicos Estados da Federação, sem a presença do indígena extinto pelas diversas guerras ocorridas antes, durante e depois da colonização, a exemplo do que ainda se verifica em outras regiões do país.

As páginas da história assinalam que outro etnocídio ocorreu em 1586 – quando Martim Leitão, na véspera do Natal – 24-12, durante somente um dia, mandou assassinar 15 a 20 mil índios Potiguara na serra da Copaoba- Paraíba, de 50 aldeias com grandes estoques de algodão, milho, feijão e mandioca.

- Qual o juízo da história em torno desses acontecimentos?

Esta concepção está para ser feita, considerando a falta de evolução das gerações civilizadas, em torno da solidariedade, respeito e coerência aos indígenas, até mesmo na atualidade, através das várias formas de exclusão geradoras do abandono e do suicídio praticados em diferentes tribos do Amazonas.

No mundo dos civilizados, alguns setores dizem ainda que esta seja uma “questão das minorias”, isto é, problema isolado da coletividade, sem representação ou interesse da sociedade moderna, como se esta não tivesse o processo de causa e efeito fundamentado nas raízes do ser primitivo e selvagem.

Se a consciência brasileira – fosse capaz de examinar o quadro das injustiças de sua origem, certamente poderia iniciar esta longa tarefa, com um Grande Júri Popular sobre os crimes praticados contra os índios, desde 1500, para que assim a maioria da população tomasse conhecimento da carnificina de quase 300 anos.

O primeiro passo, neste sentido, deveria ser do Rio Grande do Norte, onde começou a Guerra dos Índios ou Confederação Cariri, provocada pelos governantes colonizadores das terras descobertas para a criação de gado e plantação da cana de açúcar.

Com os seus guerreiros das selvas, Janduí foi longe – recebeu o apoio e participação de outros povos – mais de 100 mil pessoas, de todo Nordeste, os quais foram combatidos com armas de fogo dos bandeirantes ou paulistas, enquanto os índios usavam flechas.

Naquela época – séculos l6 e 17, o Velho Mundo – Europa9 estava na Guerra dos 100 Anos exportando para América as suas vitimas: gente fugitiva da miséria causada pelos conflitos europeus.

O TERRORISMO da bestialidade do presidente Bush não tinha evidência, naquela    

época européia, mesmo que mais de 20 países fossem envolvidos na corrida expansionista adotada pelo movimento cultural Iluminista e pela Inquisição do Santo Ofício, esta patrocinada pela Opus Dei que continua viva no mundo e na capital paulistana, sob a coordenação de Geraldo Alckmin, como parte de rede mundial.

Jamais seria possível duvidar que a corrupção do Brasil atual constitua um “pingo dágua no oceano”, em termos comparativos ao que vem sendo praticado pelos governos anteriores, desde a mentira da descoberta de Cabral, em direção à Índia, ao passar pelo litoral brasileiro, depois de movido pelos ventos fortes do Sahara na direção do Nordeste.

A herança maior do Brasil de então, ficou no Nordeste de hoje, desde o Rio Grande que teve de acréscimo, apenas, a palavra Norte servindo de orientação com rumo, infelizmente ignorado no presente - para o futuro indígena.

Aqui, projeta-se o mapa da alienação histórica elaborado desde 1500, sem definir os seus princípios, nem objetivos e valores que deveriam, necessariamente determinar o que pretendemos ser na esfera da cultura mundial.

Depois dos cinco séculos de história – continuamos a busca de outro Norte, pois o original permanece no campo da história sem rumo, caracterizado pela política isolada da cultura e sua evolução.

 

Notas:

 

01.     Ribeiro, Darcy -1996, pp. 67-80

02.     Levantamento do autor – 2002: em cada 10 pessoas entrevistadas, apenas duas tinham conhecimento sobre a história dos índios no Rio Grande do Norte.

03.     O marquês de Pombal, José de Carvalho e Melo, ao fazer a expulsão dos Jesuítas em 1759, também      

        eliminou a língua Tupi, reforçando o uso da Portuguesa. Fausto, Boris – 1998, pp. 109-112.

04.     Idem, idem – Fausto, Boris – idem.

05.     As guerras contra os indígenas foram realizadas no Brasil colonial, em períodos diferentes, sendo que o maior deles foi em 1662, quando a rainha Luiza de Gusmão, regente do seu filho D. Afonso IV, mandou uma carta datada de 9 de janeiro,  ao governador do Brasil, Francisco Barreto, para que fosse realizada a guerra total aos índios, desde o Rio Grande e demais capitanias. Revista do IHGP – N. 30, p. 38.

06.     Os índios legítimos são indicados por descendentes de povos nativos, ainda existentes no interior potiguar, sem a comprovação cientifica requerida com esse fim – para o RN, Paraíba e todo o Nordeste.

07.     Por um da Companhia de Jesus, Anônimo – 2006, pp. 95-99.

08.     Os índios do sertão chefiados pelo cacique Janduí – passaram 48 anos esperando que os holandeses lhes dessem o apoio necessário para fazer a expulsão dos portugueses do Brasil. Martins, Fátima – 2003, p. 80.

09.     A descoberta ou ocupação da América, mais precisamente do Brasil – 1500, foi decorrente da Guerra dos 100 Anos, quando o principado europeu entrou em decadência e procurou se recuperar – fazendo a conquista do Novo Mundo. Ribard, André – 1964 – Vols. I, II.

10.     Idem, idem. V. Nota 9, acrescentando-se as informações da atualidade, em que o presidente G.W. Bush, dos Estados Unidos, declarou guerra ao terrorismo em setembro de 2001, começando pelo Afeganistão e Iraque, visando garantir a produção/importação do petróleo.

11.     As denuncias de corrupção no Brasil atual, podem ser consideradas semelhantes ao tempo da colonização – quando os poderosos usavam suas riquezas para dominar os índios que não aceitavam a perda de suas terras, feita pelos colonos, sob a proteção dos governantes.

12.     O Rio grande do Norte do século 16 – foi a capitania de expressivo destaque no Brasil, motivo pelo qual recebeu o maior quartel militar ou fortaleza para a defesa portuguesa que estava dominando o território, desde a cidade de Santos Reis, atual Natal. Galvão, Hélio – 1979.

 

 

(*) Arlindo Freire é Jornalista, sociólogo – UFRN, pesquisador, sócio do IHG-RN e membro da Naya-Argentina.

. Esta coluna será atualizada periodicamente

 

 

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