Diversidade Cultural
Arlindo Freire (*)

 amelofreire@hotmail.com 

27.09.2006 

INDOCULTURA 

 

 

Arlindo Freire

 

O conceito negativo sobre a cultura dos povos indígenas1 foi estabelecido desde o período anterior ao colonialismo, como decorrência do propósito social, econômico e político para a dominação das terras e todo o patrimônio das populações nativas latino-americanas.

Quando os europeus fugitivos das guerras de cem anos e da Inquisição do Santo Ofício – 600 anos, chegaram ao território do Novo Mundo, aqui encontraram, depois da oferta de muitos presentes, a grande resistência2 estabelecida aos seus planos de ocupação.

Naquele momento histórico e político – teve prosseguimento a diversidade cultural conhecida e, ao mesmo tempo ignorada pelos europeus, apesar de ter sido adquirida no início de sua existência3 ou quando a Europa estava em formação, desde o Império Romano.

Antes mesmo da Inquisição – foram realizadas numerosas guerras no Velho Mundo, antes e durante os governos papais, sempre com objetivos de dominação pelas famílias e outros grupos4 interessados na aquisição de bens e patrimônios para elevação do status de riqueza e poder.

Essa mesma situação foi transferida, inicialmente para toda América, através dos colonos saídos das guerras, prisões, masmorras, refúgios, perseguições, cavernas, além de outros sítios, inclusive os residenciais, escolares e estabelecimentos governamentais5 que não aceitavam os rebeldes aos princípios das instituições.

Sem considerar esse comportamento, os civilizados europeus, ao desembarcarem nas terras latino-americanas, esperavam e queriam encontrar – a condição de paz, bem-estar e tranqüilidade que eles não haviam conquistado entre si6 ou no meio em que viviam – Europa.

Os intelectuais do Iluminismo criado no século 15, quando a Europa abriu suas asas para a expansão, não souberam ou não tiveram as condições para repassar os seus conhecimentos aos outros homens, especialmente os rebeldes – sedentos de informações e conceitos novos daquele tempo.

Os povos indígenas daquela mesma época, estavam em situação pior do que os civilizados, à semelhança do que ainda vivem, atualmente, em pleno século 21, depois de tanta experiência, evolução, tecnologia e informatização, além de outros recursos da globalização.

A diversidade cultural – jamais deixou de haver entre os homens, em qualquer condição, mesmo em se tratando de pessoa a pessoa, como resultado da causa e efeito inerentes7 à personalidade do ser humano, assim como nos irracionais e vegetais que fazem o infinito da vida.

Os colonizadores que fizeram o extermínio dos índios no Rio Grande do Norte conseguiram, através do tempo, deixar a sua herança para outras gerações de brasileiros, inclusive os chamados de potiguar8 vivendo no litoral e sertão, sem olhar para o seu passado.

Em menor dimensão, ou seja, sem o etnocídio norte-rio-grandense, aconteceu na região Nordeste – a semi-extinção dos indígenas, durante9 228 anos - 1597-1825, depois do que foi realizado pelos europeus, sob alegação de que os homens das selvas “não tinham fé, nem Deus”.

Os atos e fatos de perseguição, morte dos índios brasileiros, assim como de todos os rebeldes10 ao status-quo permanecem no cenário da atualidade, ainda como resultado dos padrões adotados pelas raízes iluministas.

Ao contrário de outros povos, a evolução cultural deste país tem sido escassa e lenta, especialmente no tocante aos seus povos primitivos, os quais são rejeitados pelas minorias de figuras elitistas que influenciam no esquema do poder, preferencialmente em benefício próprio.

A terra em que nasceram e viveram grandes lideranças índias – Potí, Janduí, Canindé, Paraupaba, Jaguararí11 e muitos outros sucessores de Potiguaçu no Rio Grande, têm renegado a pesquisa constante e programada sobre os feitos desses homens filhos da natureza.

Os historiadores desligados desta questão justificam a sua posição12 com a teoria de que os indígenas não têm história, nem cultura – porque não sabiam descrever o que viam e imaginavam, tampouco os acontecimentos do meio em que viviam.

Esta posição – parece ser equivocada, sem fundamento concreto e objetivo, se considerarmos que a experiência nativista está marcada, de maneira abundante, pelas inscrições rupestres13 nas pedras, com pinturas de animais e aves, além das cerâmicas, depois do que fizeram em madeiras e ossos deixados nos caminhos dos séculos.

Com o trabalho de investigação pela Arqueologia – esta hipótese poderia ser confirmada na dimensão do território sul-americano, assim como do potiguar14 e nordestino, sem a necessidade de esforços impossíveis, desde que houvesse o sentido da coerência na visão da diversidade cultural.

Nos Andes peruanos, a Indocultura vem sendo manifestada, desde o interior do solo, baseada na observação e pesquisa oral, visando à revelação15 de que os povos indígenas foram e são homens em qualquer período da humanidade.

No universo da harmonia e integração sócio-cultural – seria inconcebível admitir que as escolas e universidades existentes no RN, não disponham de cursos para o ensino de Antropologia e Arqueologia que se tornam fundamentais para o conhecimento da Indocultura, como fator da evolução humana.

A esperança é de que este impasse16 venha ser resolvido, segundo o entendimento da abertura universitária para a maioria das mulheres e homens que pretendem fazer os caminhos racionais para a evolução da coletividade na cultura.

Na visão da autocrítica, o encaminhamento evolutivo dos17 indígenas, também depende das organizações sociais e culturais que se dizem responsáveis pelo desenvolvimento da sociedade, na perspectiva da harmonia, para fazer a igualdade com liberdade.

 

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Notas:

* O autor é jornalista, sociólogo pela UFRN, sócio do IHG-RN, Naya-Argentina e pesquisador.

 

    01. O índio tem o seu mundo mítico, o seu mundo religioso, o seu mundo mágico. O mundo mítico,

a fonte do conhecimento: como surgiram a noite e o dia, por que chove, essa coisa toda. Tassara,  

Eda – 1991, p.53 citando Orlando Villas-Bôas

- Gambini, Roberto – 1988, pp.192,193.

    02. Lógica do autor sobre as guerras feitas na Europa, ao mesmo tempo da Inquisição do Santo 

Ofício, a partir do século 14, segundo diversos autores, entre os quais Rabinovitch em filme   

documentário sobre os Arquivos Secretos da Inquisição, da History Channel, editado em

setembro – 2006, para o Brasil.

    03. Na história do Império Romano observa-se a freqüência das diferenças sociais e culturais  

reconhecidas pelos imperadores, mesmo depois de reunidos vários povos, os quais continuaram

com as suas identidades próprias, desde a invasão dos bárbaros.

   04. Com o apoio de vários papas, a família Médici tornou-se a mais poderosa do mundo, em virtude 

da sua riqueza, até o ponto de fazer outros papas, para atender ao interesse imediato do grupo

familiar. 

    05. No período da colonização – os índios e escravos rebeldes refugiaram-se em cavernas do litoral 

 e sertão, depois de perseguidos pelos militares e civis que procuravam expulsa-los quando se

 recusavam às tarefas do trabalho forçado.

   06. Os governos europeus – França, Espanha, Portugal, Inglaterra, Holanda e outros paises –   

fizeram do Brasil, o melhor porto para os seus desempregados, condenados à guerras que  

exigiam recompensas das autoridades. O príncipe Maurício de Nassau e Mascarenhas

Homem vieram da Holanda e Portugal, para governar Pernambuco, com grandes divergências

que terminaram em guerras. Lira, A. Tavares de – 1982.

    07. Darwin, Charles – Caps. 2 a 4, In Origem das Espécies, sem data.

    08. O povo Potiguara – foi o mais perseguido, a partir de 1530, pelos portugueses que fizeram a

expulsão dos franceses do litoral e sertão, até 1587, mediante o apoio da Espanha. Por um da

  Companhia de Jesus – autor desconhecido, 2006.

09. No comportamento diário dos brasileiros, especialmente os nordestinos, depois dos cinco  

séculos da colonização, ainda são observados os traços da cultura indígena: palavras do   

Tupi, alimentos, higiene física – banho, dormida em rede, etc. Cascudo, Luis da Câmara -   

1983.

10. A consciência do brasileiro nordestino sobre o tratamento aos indígenas, continua na escala  

regressiva - desde a colonização, começando  sobretudo na Copaoba, atual Serra da Raiz – Pb,  

onde foram dizimados em 1587 – cerca de 15 mil nativos – Potiguara, na véspera do Natal.      

Idem, Nota 8.

11. Os estudiosos da história indígena, no Rio Grande do Norte – ainda não fizeram a organização      

desse trabalho, pois cada um deles estabelece uma data diferente para a Guerra dos Índios ou    

Guerra dos Bárbaros. Autores diversos.

 12. A história indígena – está em várias etapas, sendo a primeira nas inscrições rupestres, 

 existentes em demasia pelo Nordeste, assim como nos artefatos de pedras, muito comuns nas    

 áreas do sertão, onde a pesquisa arqueológica se faz presente. Guidon, Niède e outras, desde     

 1983.

13. Idem, idem. Nota 12.

14. Entre a maioria dos arqueólogos e historiadores preocupados com a questão indígena – a     

rivalidade tem sido constante: diversidade cultural que se manifesta sob alegação de que os   

 primeiros não aceitam os argumentos feitos pelos últimos, ou seja, a predominância do     

 empirismo sobre a racionalidade, como se um não fosse dependente do outro, para efeito de

 pesquisa.

15.Ver site www.naya.org.ar. Sem ponto final.Tudo minúsculo.

16. As maiores universidades sediadas no RN – UFRN, UnP, UERN e Facex ainda não dispõem   

do curso Superior de Arqueologia, motivo pelo qual centenas de jovens vivem reclamando   

sobre essa deficiência que compromete o presente e futuro das gerações.

17. São desconhecidas ou inexistentes as posições e obrigações das instituições culturais do RN      

sobre a questão da Nota 16, inclusive o CEC-RN – Conselho Estadual de Cultura, IHG-RN e   

outras constituídas de intelectuais especializados no estudo da Cultura e História. 

 

 

(*) Arlindo Freire é Jornalista, sociólogo – UFRN, pesquisador, sócio do IHG-RN.

. Esta coluna será atualizada periodicamente

 

 

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