Diversidade Cultural
Arlindo Freire (*)

 amelofreire@hotmail.com 

21.08.2006 

HERÓI SEM NOME

 

 

Arlindo Freire

 

O abandono, esquecimento, desprezo e alienação da coletividade potiguar sobre a história dos indígenas, durante os últimos trezentos anos, estão muito bem caracterizados na pessoa do cacique Janduí que teve a decisão de resistir até o fim, à exploração dos colonizadores que sabiam muito prometer, sem fazer o cumprimento das suas propostas.

Outros chefes tribais do Nordeste, também foram traídos, em dezenas de oportunidades, pelos exploradores europeus que pretendiam, inicialmente, ganhar a confiança dos índios e, posteriormente tomar as terras e seus produtos, através de ações amistosas ou violentas em que os nativos sempre foram apontados como os responsáveis.

- Como pode alguém considerar os canibais e antropófagos dos homens civilizados?

Esta indagação ainda existe, com as indicações de que o canibalismo e antropofagia1 jamais deixaram de ser realizados em qualquer parte do mundo, segundo as necessidades da sobrevivência humana e por motivos culturais, a exemplo do que tem acontecido em toda a história da humanidade, desde a Europa, além de outros continentes.

As maiores tribos do Brasil colonial, especialmente os Potiguara do litoral e Tarairiú, do sertão, foram canibais e, portanto condenadas pelos europeus que assim manifestavam de maneira contraditória – os seus hábitos e costumes de terem comido a carne humana2 quando não tinham outros meios para matar a fome.

As condenações feitas nesse sentido, geralmente partiram de religiosos defensores do sentido humanitário, sem olhar o passado recente das guerras religiosas em que os homens e mulheres da Inquisição foram condenados à morte3 nas fogueiras, sem direito à defesa, ao mesmo tempo em que nas matas, os corpos humanos eram pendurados nas árvores para serem comidos pelos cachorros.

Além de Janduí, outros chefes indígenas – ficaram na desgraça da história contada e escrita pelos vencedores que usaram todos os meios para a conquista dos nativos como subordinados, serviçais e sujeitos aos conquistadores, em troca de alguns favores, muitos dos quais4 deixaram de ser cumpridos ou atendidos.

O colonizador português deixou profundas marcas de mentira e traição aos índios, considerando, talvez o exemplo dos espanhóis, assim como de outros povos5 que pretendiam ocupar as terras americanas quando a Europa estava em decadência6 econômica, social e cultural causada pelos conflitos internos.

As traições7 foram adotadas sem maiores reservas, até mesmo entre os próprios colonizadores, quando estes, por motivos pessoais preferiam defender ou ficar ao lado dos índios indefesos que não estivessem de acordo com as atitudes dos pêros ou portugueses representantes do reinado de Lisboa.

O francês e holandês nas relações com os nativos8 nordestinos, também fizeram o desprezo e pouco caso, quando seus interesses estavam em jogo ou sinal de prejuízos, sem as vantagens materiais pretendidas pelos governos dessas nações que procuravam recuperar-se das guerras ocorridas entre os seus paises.

Depois do incêndio das aldeias de Copaoba – 1587, o cacique Ararambé foi preso e levado para Lisboa, onde ficou exilado e faleceu, sem voltar à sua origem na aldeia Iniguaçu, onde ele contava com 20 mil índios9 Potiguara produzindo milho, feijão, algodão, mel de abelha e cortando pau-brasil para vender na Europa.

Os europeus que porventura tiveram consideração e respeito aos indígenas, como Rodolfo Baro e Jacó Rabe, desde o Rio Grande,10  perderam a confiança de seus governos e, consequentemente suas vidas em circunstancias misteriosas no estilo “queima de arquivo”, a exemplo do que ainda acontece atualmente.

Nas denominadas “guerras justas” – jamais deixou de haver os ataques de surpresa, em forma de boicote, visando eliminar11os índios: nas suas caçadas, o paulista Domingos Jorge Velho mandou trucidar cerca de 2 mil silvícolas refugiados nas cavernas de pedra da serra Acauã, no Seridó norte-rio-grandense.

Os massacres de nativos – sempre foram constantes em toda América, assim como  no Nordeste12 e Rio Grande, desde o início da colonização, de acordo com as instruções recebidas e tomadas pelos exploradores europeus – para que fossem superadas as resistências.

Na formação das tropas de combate feita pelos colonizadores, normalmente havia mais de 50 por cento dos homens, compostos de índios13 retirados das tribos localizadas nas matas, depois de vencidos, presos, escravizados e humilhados pelos estrangeiros que invadiam e tomavam o território.

Como e porque numerosos chefes de tribos foram desaparecidos do mapa brasileiro, continua sendo uma das maiores questões, sem resposta, escrita nos pequenos e grandes livros de história, atendendo às recomendações das elites e governantes que negaram, radicalmente, o direito de justiça e liberdade dos primitivos brasileiros.

Janduí foi um deles – morreu na velhice, sem haver indicações de quando, nem onde, depois do imenso ostracismo estabelecido pelos portugueses e holandeses, nos períodos seguidos da tomada do espaço físico – terra de onde foram expulsos os primeiros habitantes, deixando aí – o suor, as lágrimas e o próprio sangue para as futuras e atuais gerações.

Com tais acontecimentos, a diversidade cultural entrou no âmbito da história brasileira – fechando a porta para o universo da indocultura que permanece, infelizmente no mistério do passado.

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*O autor é jornalista e sociólogo pela UFRN, sócio efetivo do IHG-RN.

 

Notas:

01- Canibais – documentário, do History Channel – Brasil, divulgado em Julho-2006.

02- O Canibal – Lestringant, Frank – 1997.

03- Idem, idem.

04- Studart Filho, Carlos – 1966: pp.64.

05- Idem, idem: pp.109,110.

06- Ribard, André – Vol. II: p.25 e outras sobre A Reforma.

07- Siqueira, Baptista – 1978: p.69 em se tratando da proibição da Língua Geral em 1759, expulsão dos Jesuitas

      em 1758 e as revoltas dos indígenas, em virtude da retomada de seus territórios pelos colonos.

08- Por Um da Companhia de Jesus – Anônimo – 2006. Relato sobre a expulsão dos franceses sediados na

       Copaoba – Paraíba, 1587 sob o comando do Ouvidor Geral Martim Leitão, quando o incêndio arrazou mais             

       de 50 aldeias indígenas, na véspera do Natal – 24 de dezembro.

      - Lira, A. Tavares de -1982: p. 48 e seguintes – governo holandês no Brasil.

 09- Idem, idem – 1530, Guerreiros indígenas de Copaoba assaltam e incendeiam engenho de Diogo Dias,  

       próximo de Itamaracá – Pernambuco, em defesa da jovem índia que estava na companhia do senhor de  

       enegenho, sem querer retornar à sua tribo.

10- Teensma, B.N. – 2000, In Índios do Nordeste: Temas e Problemas 2 – Edufal.

11- Fausto, Boris – 1998, p. 50 sobre as “guerras justas” adotadas pelos governos, visando combater os

       indígenas que se recusavam ao trabalho escravo.

12- Idem, idem ponto 8, acima – acrescentando-se que a Guerra dos Índios foi iniciada em 1530 – ponto 9,

       Seguida pela de Copaoba-Itamaracá, 1587 e, mais tarde, na construção do forte Santos Reis, agtual Reis

       Magos, para a fundação de Natal.

13- Na formação das tropas de combate organizadas pelos portugueses, desde o início da colonização do Brasil,

       mais de 80 por cento dos homens foram constituídos de índios, os quais eram chamados, normalmente de

       flecheiros, segundo a maioria dos autores.

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Próximo Artigo:  Indodiversidade. 

 

 

(*) Arlindo Freire é Jornalista, sociólogo – UFRN, pesquisador, sócio do IHG-RN.

. Esta coluna será atualizada periodicamente

 

 

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