Mata Grande

Por Walter Medeiros

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MATA GRANDE - Um pedacinho de saudade...

Remi Bastos

Em 1957 meu pai rumou com sua família para a cidade de Mata Grande. Iria prestar seus serviços na área de saúde pública, na qualidade de Guarda Chefe do extinto DNERU – Departamento Nacional de Endemias Rurais. Era a campanha de combate à malária. Vários guardas foram designados para aquele município alagoano na missão de combater o mosquito, um anofelino vetor daquela endemia. Mata Grande, é uma cidade rica em água subterrânea, com um lençol freático superficial bem distribuído, além de um clima frio agradável durante quase todo ano. Lembro-me de uma fonte de água cristalina que existia na entrada da cidade, ao lado do campo de futebol em que mais tarde foi construído no local o Ginásio estudantil, nas adjacências do Grupo Escolar Demócrito Gracindo onde cursei o terceiro ano primário. Ainda lembro-me do nome de uma das minhas professoras, Vanda, filha de Seu Pantaleão (Seu Panta), dono de uma padaria. Como era gostoso o pão da padaria de Seu Panta; não era como os de hoje, não tinha aditivos químicos. A professora Vanda era magrinha e esbelta, porém muito inteligente e exigente nas suas matérias. Por ser uma pessoa católica sempre fazia algumas pausas em suas aulas para citar um versículo bíblico. Costumava dizer que as pessoas deviam estar preparadas para a morte. Às vezes, na fantasia da minha adolescência, sentia medo das suas pregações.

A minha avó materna sempre dizia: os matagrandenses são pessoas hospitaleiras, porém valentes. A pobre Dindinha, como a chamávamos, havia morado em Mata Grande no início dos anos quarenta e certamente presenciou algumas cenas bárbaras típicas do sertanejo nordestino vingador; por isso dizia aquelas palavras. Era o início do ano 1957. Estávamos há quase dois meses em Mata Grande. As palavras da minha avó soavam nos meus ouvidos: os matagrandenses são valentes. Eu e meu irmão Remilton (Mitinho) nos limitávamos  a brincar na calçada da rua onde morávamos - Rua da Cruz. Certo dia deixei o medo de lado e segui pela rua da Cruz em direção ao Grupo Escolar, onde ao lado existia um campo de futebol com vários pés de casuarina margeando uma de suas laterais pelo lado da rua. Foi no momento em que estavam formando os times. Para minha sorte e vontade de jogar, fui interrogado por uma pessoa: "Hei! você aí, sabe jogar?" Era o que eu mais queria desde quando cheguei em mata Grande. Respondi sim, ao mesmo tempo em que afirmava com a cabeça. A partir daí entrei em cena na arte de jogar futebol, inspirado nas peladas de rua em Santana do Ipanema, ao lado do Tênis Clube e no campinho de Seu Abílio Pereira. Joguei que nem gente grande, marquei alguns gols e fiz pirueta com a bola na frente de João Bodinho e Laércio (Pestana), os dois craques mirins na época.

O prédio que nós morávamos ficava bem em frente à casa do deputado Luiz Malta, pai de João Bodinho e Lulinha, o qual tinha como vizinho uma senhora muito educada, não me recordo mais o seu nome; no entanto, lembro-me que tinha um filho por nome de Dênison. Mais adiante, próximo a curva da rua, no sentido do comércio indo para a Rua de Baixo, ficava a Casa de Seu Vieira, Pai de Benedito e outros filhos dos quais não me lembro os seus nomes, inclusive tinha uma filha muito bonita por nome de Vera. Seu Vieira era dono de uma casa de jogos, principalmente sinucas. O velho Vieira tinha problema de coluna, andava com certa dificuldade curvando a parte superior do corpo para a frente, mas sempre no trajeto casa – trabalho. A casa em que morávamos era um pequeno sobrado, fazia esquina com um beco que conduzia por um caminho íngreme ao povoado Galo assanhado. Ao lado, existia uma árvore frondosa, provavelmente uma acácia, planta da família das leguminosas, onde eu e meu irmão costumávamos pegar cigarra e zuíta. O entardecer era lindo, com o canto das cigarras esculpindo o momento sonoro da Ave Maria. A cidade lentamente se recolhia ao silêncio, descortinando a noite com o céu estrelado. Em um dos quartos mamãe ninava as irmãs mais novas, enquanto meu velho pai em sua cadeira preguiçosa descarregava suas energias sob a sinfonia do seu tradicional ronco. Tudo era lindo e manso envolvido pelo manto crepuscular matutino.

A nossa vizinha pelo lado esquerdo, Dona Iaiá, mãe de Manoel Lobo, Raimundo, Telma e mais outros filhos, completava a felicidade de mamãe como uma boa vizinha. Conhecemos também a família de Seu Antonio Barbosa (Lourdinha, Zé Adauto,...), pessoal educado e hospitaleiro. Lá mais adiante, ainda na rua da Cruz, quase em frente a casa onde morava Seu Gentil Malta, prefeito de Mata Grande na época, ficava a casa de Seu Zé Rato, um preto alto, humilde e distinto, cujos filhos ostentavam o epíteto de Rato. Né Rato, um dos seus filhos costumava reunir a meninada na calçada do sobrado onde morávamos, para contar histórias de trancoso e sobre filmes de índios contra a polícia montada americana. Era muito divertido. O Né tinha uma facilidade tamanha para narrar as suas histórias, que a meninada vibrava. Mais adiante se encontrava o Grupo Escolar Demócrito Gracindo, quase em frente à casa dos irmãos Gilvan e Teonia, meus colegas do terceiro ano primário. O pai de Gilvan possuia um sítio por trás de sua casa repleto de fruteiras. Vez por outra a meninada, comandada por uma criatura estranha que atendia pelo nome de "Pinhão", invadia o sítio às escondidas para furtar pitomba.

Naquela época o ensino público era valorizado e os professores de Mata Grande primavam por este conceito. Recordo-me que na minha classe existia a turma "A", dos mais adiantados e a "B", dos menos aplicados. Quem tirasse nota acima de sete automaticamente seria promovido a turma "A"; caso contrário, permanecia onde estava. Certa vez tirei um nove em religião, fui promovido naquela matéria. Só que no mês seguinte me afoguei num quatro, fui rebaixado, permanecendo na turma "B" até o dia em que retornamos para Santana. Seguindo em direção à Rua de Cima, logo no início da subida existia um sobrado onde morava Seu Demoriê, juiz de direito e ex-padre, pai de Luiz Jorge e Zinho, se avizinhando pela frente com a farmácia do pai de Louro. Um pouco mas acima, já na virada para a igreja, ficava a casa do finado Eustáquio Malta, pai de Urbano e Pedro Paulo.

Estávamos no mês de fevereiro de 1957, época do carnaval. Os Matagrandenses eram verdadeiros foliões. Vários blocos desfilavam pelas ruas da cidade numa tremenda euforia momesca. Eu e meu irmão Mitinho, juntamente com alguns amigos colhíamos barro de louça (argila) muito comum nas proximidades das fontes de água, para construirmos figuras de cachorro, boi, diabo, urso etc., e daí confeccionarmos as máscaras. Já no domingo de carnaval, por volta das onze horas um dos maiores blocos puxado por uma orquestra entrou na Rua da Cruz com mais de duzentos foliões, todos mascarados. Ninguém conhecia ninguém; existiam facções. Após passarmos em frente à casa do deputado Luiz Malta, alguém achou de tirar a máscara para aliviar o calor e por desventura foi reconhecido. Não deu outra: o pau comeu. De repente vi o Paulinho Brandão, irmão de João Alvino, Filhos de Seu Pompílio Brandão, juntamente com Iran, parece-me o filho de Seu Beija que possuía uma loja de tecidos na Rua de Baixo, logo após a sorveteria de Noca, aderirem a confusão em defesa de alguma pessoa. Ouviu-se um estampido, um tiro de revolver. Nesse momento corri mais um grupo de mascarados, entramos pela casa do prefeito Gentil Malta numa velocidade, fomos sair no outro lado da rua. Mais adiante, quando tiramos as máscaras foi que nos identificamos: era eu, Mitinho, Demóstenes, Tonho Toco e seu irmão Iremar, Pamonha, Louro e Laércio Pestana. O carnaval que mal havia começado, para mim terminava ali.

Apesar de alguns contratempos, Mata Grande também tinha o seu lado bom. Quantos momentos de felicidade vivi nessa terra tão boa e que até hoje, quase cinqüenta anos depois, ainda me traz saudade. É uma cidade que além da hospitalidade do seu povo, possui fartas reservas de água potável em seu solo, além dos sítios e engenhos de cana de açúcar em suas cercanias. Quantas vezes, em companhia de Demóstenes e Zé Maria, irmão do detetive Bem-Te-Vi subimos a Serra do Sabonete, fomos ao sítio Gato caçar, chupar manga, laranja e tomar água de coco? Ou com os amigos peladeiros tomar banho na lagoa de seu Jarí, no Cumbe de Seu Rodrigues, pai de Iremar e Icléia ou mesmo nas águas correntes da Morada de Seu Juca? Quando alguém queria caçoar com outro perguntava assim: você já foi na Morada de Seu Juca? Ainda guardo vivo na lembrança as vezes em que subia a Serra da Onça para comer manuê; lá do alto contemplava o extenso horizonte e sentia Mata Grande na palma da minha mão.

Os picolés gostosos da sorveteria de Noca e os refrigerantes comprados no bar de Cristo... Quanta lembrança eu guardo dos banhos na Cachoeirinha, um sítio situado logo depois do povoado Gato. Eram veios de água que desciam as serras e ao longo dos seus percursos convergiam e se somavam para formar a cachoeira. Eu tinha um colega do grupo escolar por nome de Anchieta que residia nessa localidade, e sempre nos acompanhava nessas jornadas tão gostosas; éramos os meninos da cachoeirinha. O Anchieta era um menino filho de pais humildes, e desde aquela época já mostrava sua tendência para o sacerdócio. Acredito que tenha se ordenado padre, e ao longo de todos esses anos gostaria muito de reencontrá-lo, poder abraçá-lo e pedir-lhe a sua bênção. Passaram-se os momentos felizes que vivi nesta cidade. Foram-se os sonhos, mas ficou a realidade como prova de uma existência. Voaram os dias como as gaivotas em alto mar, mas não voaram os seus ninhos. E depois de todo esse belo, só me resta dizer: Mata Grande – um pedacinho de saudade.

(O autor acredita que podem ter havido algumas falhas, principalmente nos nomes das pessoa, mas tudo que aqui escreveu são fatos verídicos que ocorreram em sua adolescência, cerca de cinqüenta anos passados nesta cidade, que lhe trazem boas e infinitas recordações. Remi Bastos Silva é filho do Guarda Chefe Plácido Reis da Silva, hoje com 93 anos, aposentado pela SUCAM)

 

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