Crônicas, artigos, histórias, fotos e notícias sobre esta cidade do sertão de Alagoas
Mata Grande Por Walter Medeiros
FOTOS FALE CONOSCO HISTÓRIA
CRÔNICAS
Walter Medeiros CAMINHOS DE MATA GRANDE
AS ALAMEDAS
PEDRAS DA SERRA
A FONTE
O AR DE MATA GRANDE
Remi Bastos MATA GRANDE - Um pedacinho de saudade...
Wellington Medeiros MATA GRANDE
CORDEL POEMA PARA O MEU SERTÃO
SEU OTACÍLIO EM VERSO
REPORTAGEM A HISTÓRIA DE SEU OTACÍLIO
Márcia M. M. Nunes ORAÇÃO À PADROEIRA
José Arnaldo Lisboa Martins Mata Grande - minha cidade rainha!
Ana Soares de Souza Uma matagrandense nos EUA
REENCONTRO  

DISCURSO DO JORNALISTA WALTER MEDEIROS - CIDADÃO MATAGRANDENSE

 

HISTÓRIA

Esta página reúne informações sobre Mata Grande, a cidade onde morei na minha infância, bem como crônicas e poemas por mim dedicados a este belo pedaço do sertão nordestino. Mata Grande está situada na Microrregião do sertão alagoano, tendo limites com Água Branca, Inhapi, Canapi, Pariconha e Pernambuco. Tem uma altitude de 635 metros acima do nível do mar. Sua Área: 253 km2. Seu Clima: Temperado. Temperatura Máxima de 33° C e mínima de 15° C. População: 24.409 habitantes. Eleitorado: 13.257 eleitores. Economia: Agricultura. Educação: 6.129 vagas (redes estadual e municipal). Saúde: 1 posto de atendimento e 1 Unidade Mista de Saúde (44 leitos). Acesso: AL-105.  

            A serra de terras férteis onde o povoado se formou deu nome ao município de Mata Grande. Os primeiros donos de terras foram Antonio de Souto Macedo, Sebastião de Sá (ambos considerados pioneiros na região), Francisco de Braz, Teodósio da Rocha, Nicolau Aranha, Baltazar Farias, Damião da Rocha, Antonio de Farias e Diogo de Campos. Os pioneiros na região, porém, foram mesmo Sebastião de Sá e Antonio Macedo.

Os latifúndios eram constituídos por sesmarias doadas pelo governador da Capitania de Pernambuco, Francisco Barreto, em nome do Rei de Portugal, como recompensa pelo trabalho na guerra da restauração pernambucana. Os dois pioneiros passaram a desenvolver a região através da criação de gado em seis fazendas. As terras deles acabaram doadas aos padres jesuítas, que logo depois foram expulsos do país e tiveram os bens sequestrados pela Coroa, vendidos, em seguida, em leilão.

A população começou a se formar em 1791, quando João Gonçalves Teixeira doou parte de suas terras para a construção de uma capela em homenagem a Nossa Senhora da Conceição. A propriedade tinha o nome de Cumbe, por conta da existência de uma pequena fonte que abastecia o povoado. Em 1837, o povoado foi elevado à categoria de vila. Em 1902, se transformou em município autônomo com o nome de Paulo Afonso. Em 1929, voltou a ser chamado de Mata Grande. As festividades comemorativas à padroeira e à Emancipação Política são os dois grandes eventos que movimentam a cidade.

            Conforme dados do Governo do Estado de Alagoas sua denominação passou a ser Mata Grande em l835, quando foi anexada, como termo, à comarca de Penedo. Em 18 de março de 1837, por  Resolução provincial nº 18, foi a povoação de Mata Grande elevada à categoria de vila e freguesia. Mata Grande perdeu, todavia, pela Lei nº 43, de 4 de maio de 1846, as prerrogativas de vila que lhe foram outorgadas pela Resolução de 18 de março de 1837, sendo incorporada a Traipu, vindo a readquiri-las seis anos depois, em virtude da Lei nº 197, de 28 de julho de 1852. Tomou o nome de Paulo Afonso pela Lei nº 516, de 30 de abril de 1870, sancionada pelo Presidente José Bento da Cunha Figueiredo, quando ainda o seu território abrangia a famosa cachoeira.  

A Lei nº 328, de 5 junho de 1902, assinada pelo seu ilustre filho, Dr. Euclides Vieira Malta, então Governador do Estado, elevou-a à categoria de cidade, conservando-lhe o nome de Paulo Afonso, até que, em 25 de maio de 1929, voltou ao de Mata Grande, por terem cessado, com a criação do município de Água Branca, os motivos de ordem histórica e geográfica que lhe deram o nome de Paulo  Afonso. Do seu território foram desmembrados os municípios de Pão de Açúcar, em 1854, e Água Branca, em 1875.

 

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CAMINHOS DE MATA GRANDE

--- Walter Medeiros

Numa dessas noites pensei insistentemente em sentir o perfume de uma rosa. E ao sentí-lo, soltar meu pensamento pelos caminhos de todos os meus sonhos infinitos. Lembrar o cheiro das alamedas coloridas de Mata Grande. E as pedras da Serra da Onça, onde fazia as incursões de minha infância. Reviver comigo o tempo ingênuo e puro da fonte, próximo da qual encontrava o mel das abelhas e onde o silêncio só era quebrado pelo canto dos pássaros.

Quis voltar a Mata Grande do Grupo Escolar Professor Demócrito Gracindo, onde me realizava ao receber a professora Josefina Canuto. Dos filmes de Lampião. Do bar de Noca. Do alambique. Da padaria. Da rua de cima e da rua de baixo. Do armazém de seo Odilon. E da loja de "Priminho", onde "Priminha" cantava cedinho na calçada sua música de amor: "que alegria aqui nesse sobrado/Priminho é meu, oh! que felicidade/ e as crianças brincam na calçada..."

Não sei porque, mas tenho certeza de que o perfume da flor me lembra Mata Grande, como se lembra da mulher amada. Traz à minha mente a figura de Pastora, preta sem rumo, bebendo cachaça. Traz a mim Dona Maria Sabiá, chegando a minha casa com o café torrado no caco. O carro de cocão de Etinho. A despedida de Clemilda. Os bigus nos carros de boi. A felicidade da roupa nova que a minha mãe fazia.

Mata Grande é como esta rosa que pensei procurar. Perdida no alto sertão das Alagoas. Não manda mais notícias. Mas eu não esqueço. E hei de vê-la novamente, para retomar o caminho dos meus sonhos.

(N.R. O autor saiu de Mata Grande em 1962. Esteve lá em 1993)

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AS ALAMEDAS  

--- Walter Medeiros

Voltar àquelas alamedas coloridas seria retornar a um passado sem igual. Por elas andava e sonhava sonhos pouco ambiciosos, porém justos. Como os que ainda hoje sonho, que a vida haverá de concretizar. Observava, pequeno, as frondosas árvores, com suas flores vermelhas e amarelas, e as folhas caídas ao chão, levadas pelo vendo da ladeira da Matriz.

Não era de ficar observando muito, porque morava distante, mas aproveitava o máximo quando  era mandado à rua ou ia, aos domingos, engraxar os sapatos no centro. E não comentava com ninguém, pois ao juntar-me aos outros aquilo não entrava nas conversas.

Sei que estas lembranças belas guardadas não vêm agora pelo fato de ter saído de lá. Aliás, elas sempre estiveram presentes, e agora apenas se reavivam, trazendo à imaginação o aspecto que teriam atualmente, muitos anos depois.

Não quero acreditar que tenham mudado nada, porque não havia necessidade. Mas ao redor deve estar tudo diferente. A cidade cresceu, as coisas de hoje devem estar postas em todos os lugares. Antenas de TV, vitrines, caros novos, devem ter tomado o lugar das pouquíssimas antenas de rádio, das portas duplas e altas de madeira, das lojas e dos jeeps Willys de então.

Deve ser grande o movimento de pessoas. Rostos que, na maioria não conheço. Mas entre eles devem estar os semblantes daqueles vizinhos e colegas de infância, hoje adultos, se não mudaram de cidade – como Valdeci, Helena e Valderez, ou se não se passaram, como dona Francina e outros.

Pensei, criança, voltar um dia e ver tudo igual. Hoje sei que tenho de enfrentar a mudança. Mas a vida só me dá direito a isto.

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PEDRAS DA SERRA

--- Walter Medeiros

No sertão onde eu vivi, o homem não deixa nada sem conhecer de perto. É curioso e procura os mínimos detalhes sobre sua vida e o ambiente que habita. E isso o leva a se acostumar com as cobras, as rochas e os espinhos. Ali pouco importa muita coisa que o desenvolvimento traz, principalmente quando leva vida simples.  

Foi por isso que subi a Serra da Onça, num convescote em certo domingo. Era muita gente. Quem já conhecia, ia mostrando os caminhos aparentemente impossíveis de seguir. Perigosos, porém não intransponíveis. A recomendação menor era com as coroas de frade. O maior cuidado, não escorregar.

A pe se foi até a serra. Muita disposição exigia-se para poder subir, mas todo preparo era pouco para evitar o cansaço. Todo ânimo ressurgia, ao sentirmos que estava próximo o cume, com seus segredos, suas lendas e rochas até hoje não visitadas.

A beleza da paisagem era muito grande. Todos ficavam a apreciá-la. Seguiam, porém, aos poucos, até se juntarem para comentar o medo de alguns, o desajeitamento de outros, as plantas nascidas das pedras. Soltávamos a imaginação, esquecendo até a quentura das rochas sob o calor do começo da tarde.

Conhecemos a Serra, nos divertimos e depois chegou, para muitos, a maior apreensão: descer de volta! Foi muita aflição junta, mas todos conseguiram. E a serra ficou lá, indiferente à visita, como representante dos poderes da natureza. Imortal, hoje talvez sem se abalar sequer com os anos de seca na região, que trazem penúria ao povo nordestino.  

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A FONTE  

--- Walter Medeiros

Uma das lembranças que guardo de Mata Grande é da fonte, onde diariamente muitos iam buscar água e da qual se falava como se ela fosse uma pessoa integrada ao nosso convívio. Ali, as cenas mais comuns eram formadas por pessoas transportando galões ou burros, como seus barris, tangidos calmamente pelos caminhos feitos aos poucos pelas pisadas cotidianas.

Era a fonte que, arrodiada pela tranquilidade dos avelozes e plantas rasteiras, garantia a sobrevivência de muitos, até em certos períodos críticos de seca, e que tinha uma beleza ímpar, já que o sol quase não chegava perto e vivia como que protegida pela vegetação.

Naquele local se misturavam os pássaros, com seu canto sinfônico, que nos davam uma tenra tranqüilidade, a qual motivava remorso, quando quebrada, como fez numa daquelas manhãs um menino, ao atingir fortemente um canário com uma “bala” de barro. Ao vê-lo batendo asas, sem poder voar, lutando contra a morte, foi tomado de arrependimento e tentou salvá-lo a qualquer custo. Mas era tarde.

Tinha dessas coisas a fonte, que eu posso comparar hoje à melhor alvorada que desejaria ter. Cedo, pisava suas bordas molhadas e seguia o ritual comum, jogando as latas, naquela espera paciente pelo afastar das folhas. E saída respirando o ar puro, ao seu redor, deixando-a algumas vezes solitária, como que se embalando, para dormir um sono justo.

Mas todo esse aspecto pareceu mudar quando contaram-me as chocantes cenas ocorridas ali perto, décadas atrás, quando não pôde servir muito. Ano seco, muita fome e, o pior, muitos tombando mortos.

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O AR DE MATA GRANDE 

--- Walter Medeiros

            Mata Grande no meu tempo teve coisas que ninguém esquecerá jamais. Ouvia-se no ar “Alguém me disse”, “Quero beijar-te as mãos” e todas as outras faixas do LP de Anísio Silva, seguidas daquelas outras músicas na voz de Carlos Gonzaga – “Diana” e “Oh! Carol”, Luís Gonzaga com “Forró no escuro” e as previsões de “Marcianita (branca ou negra)” de que “nos anos setenta felizes seremos os dois”.  

            Enquanto isto, na rua passava Zé Praxedes com aquela escada grande para completar a instalação da energia de Paulo Afonso. Foi naquele tempo que meu pai recebeu um rádio vindo de São Paulo. Nele escutávamos os jogos da Copa do Mundo e a apreensão sobre o açude de Orós, que estava para romper a qualquer momento.

            As notícias chegavam como que molhadas pela chuva e debaixo daquele frio que fazia pularem os cururus no meio da rua. A mesma rua por onde vinha aquela mulher com um balaio de imbu na cabeça e a gente comprava um caldeirão inteiro para chupar.

            Mais de trinta anos depois voltei à cidade. Graça - minha mulher, Clemilda, minha irmã e dois dos meus filhos – Firmino Neto e Waltinho. Cada passo era uma emoção, em cada esquina matava uma saudade, em cada rosto via os dias da infância. Inclusive no rosto de Dona Josefina, com quem nos encontramos, embora rapidamente; Dona Luizinha, Valderez e Germano.

            Aquela volta a Mata Grande foi como uma espécie de desincumbência. Parecia que existia no ar uma obrigação assumida em percorrer novamente aquelas ruas, andar novamente naquela feira, tocar mais uma vez nos carros-de-boi, olhar a fonte, o Almeida, a Igreja.

            O tempo passou novamente. Faz tantos anos que não vejo Mata Grande. E parece que aquela vontade de voltar aumenta. Em cada mensagem que agora recebemos pela internet, em cada fato que a natureza coloca em nosso caminho. Parece que tudo leva a fazer real aquela frase de pára-choque que nosso vizinho João Leobino tinha no seu caminhão: “A saudade me fez voltar”.

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SOBRE O AUTOR

Walter Medeiros - Nasceu no dia 17 de julho de 1953, em Natal-RN. É escritor, poeta, Jornalista Profissional e Bacharel em Direito. Trabalhou em diversos veículos de comunicação do país, entre eles a Folha de S. Paulo, o Estado de S. Paulo, Rádios Cabugi e Planalto, TV Cabugi, Tribuna do Norte e Dois Pontos, tendo colaborado no jornal Movimento. Foi um dos fundadores do jornal cultural "O Galo", da Fundação José Augusto. Participou do jornal "O Letreiro", do curso de Letras da UFRN (1976) e do fanzine poético "A Margem". Publicou em 1990, o livro ABELARDO, O ALCOÓLATRA, trabalho que mostra o dia-a-dia de uma clínica de recuperação de dependentes químicos. Exerceu a Presidência da CERN, hoje Departamento Estadual de Imprensa  e a Assessoria de Imprensa da Prefeitura Municipal de Natal. No Movimento Estudantil, foi presidente do Diretório Acadêmico do Centro de Ciências Sociais Aplicadas da UFRN, em 1976. Exerceu também vários atividades sindicais, entre elas os cargos de vice-presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do RN e Diretor da Federação Nacional dos Jornalistas – FENAJ. Trabalha atualmente na Secretaria da Saúde do RN. 

 

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